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segunda-feira, 10 de junho de 2024

Os números da derrota da esquerda

Os tempos estão adversos para os projectos de esquerda. O sinal mais espantoso disso foi a alegria com que o PS, o BE e o PCP receberam os resultados das eleições de ontem. O PS ganhou, mas perdeu um deputado. O BE e o PCP elegeram os respectivos cabeças de lista, mas ambos perdem um deputado. Quando a alegria é de alívio, estamos perante uma situação particularmente difícil. O PS perde 160 mil votos, o BE perde mais de 157 mil votos e o PCP (CDU) mais de 65 mil votos. Tudo isto (perda no total da esquerda de mais de 382 mil votos, embora haja que matizar um pouco essa perda, já que o Livre sobe quase 88 mil votos, por tanto uma perda de quase 300 mil votos) numas eleições em que houve um acréscimo de quase 635 mil votos. Ou a esquerda percebe as causas pelas quais os eleitores lhe estão a virar as costas ou pode estar perante uma longuíssima travessia do deserto. 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

A esquerda e a imaginação.

Carmo Afonso tem hoje um artigo interessante no Público. Trata da incapacidade dos partidos de esquerda, como o PCP e o BE, de atrair eleitorado, apesar da solidez política dos seus candidatos. A questão residirá em que a generalidade das pessoas que trabalham por conta de terceiros não se considera como trabalhadora, mas como pertencendo à classe média, apesar de ter uma vida e rendimentos que a colocam muito abaixo da classe média. Quando votam, fazem-no não por aquilo que são, mas por aquilo que desejavam ser. Votam segundo as representações fantasiosas que têm do seu lugar na sociedade. Este fenómeno não é apenas português. Ele está presente em todas as democracias ocidentais.

O equívoco da articulista não reside no diagnóstico, bastante adequada, que faz, mas no que diz acerca das causas e dos candidatos. Uma frase resume o equívoco: O problema não está nas causas e não está nos candidatos. A primeira questão que se deve pôr é a seguinte: para que servem bons candidatos e boas causas, se os eleitores não se sentem por eles motivados? Isto mostra que uma parte da esquerda, o caso não se aplica ao Partido Socialista e, eventualmente, ao Livre, não percebeu uma coisa. As pessoas não se sentem dignificadas por serem trabalhadoras. Elas pretendem livrar-se da sua condição e aquilo que a esquerda lhe oferece é a manutenção da sua condição, mesmo se melhor remunerada e reconhecida.

Essa esquerda nunca percebeu que, a partir de certa altura, as pessoas não votam por aquilo que que são, mas por aquilo que desejam ser e por aquilo que querem para os filhos e para os netos. Fundamentalmente, o seu voto funda-se na imaginação e não na razão. Ora, a esquerda descurou a imaginação, o imaginário daqueles que diz defender, e entregou-o à direita, seja à direita clássica, com as suas variantes conservadoras e liberais, seja à extrema-direita, cujo imaginário se adapta ao ressentimento de muitos trabalhadores que desejam ser outra coisa do que são. O que Carmo Afonso não equaciona é o esgotamento do discurso da esquerda, a sua falta de imaginação e o desacerto, cada vez maior, entre as suas causas e as causas dos eleitores que ela pensava pertencer-lhe pela condição de classe.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Madeira e a derrota da esquerda

Voltando às eleições da Madeira. Elas representam, em toda a linha, uma derrota para a esquerda. O PS tem, apesar da situação de arguido de Miguel Albuquerque, um crescimento irrelevante, que representa mais uma derrota do que uma vitória. PCP e BE desaparecem do parlamento regional e o Livre é uma inexistência. Pode-se pensar que a Madeira nunca foi um terreno fácil para a esquerda. É verdade, mas não é tudo. A esquerda sofreu uma derrota dolorosa nas últimas legislativas. Pode-se perguntar se essa derrota é conjuntural ou estrutural. 

Olhando para o que se passa noutras paragens, é plausível pensar que seja estrutural. Isso não significa que exista uma lei social que evidencie um inexorável afastamento da esquerda do poder. Significa que o actual conjunto de ideias e causas da esquerda são pouco mobilizadoras do eleitorado e não respondem aos anseios deste. Os eleitores estão a dizer à esquerda que ela precisa de reformular os seus programas, as causas que a movem e até o modo como age. Contudo, os directórios dos partidos de esquerda parecem não compreender o problema e movem-se, num território cada vez mais adverso, como sonâmbulos.

sábado, 25 de maio de 2024

A urbanidade democrática

Há, num artigo sobre o ambiente actual na Assembleia da República (aqui), uma revelação curiosa. Nuno Magalhães, em tempos líder da bancada do CDS, diz ter feito um acordo com o líder da bancada comunista. Esse acordo previa que a bancada centrista não se referia ao PCP e ao BE como extrema-esquerda e estas bancadas não se referiam ao CDS como extrema-direita. Este acordo é interessante por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o epíteto de extrema-direita ou extrema-esquerda é usado, muitas vezes, não como classificação cientificamente adequada de certa força política, mas como arma de arremesso político. Na verdade, nem o CDS era ou é de extrema-direita, nem o BE e o PCP eram ou são de extrema-esquerda. Em segundo lugar, o acordo é interessante porque mostra que é possível conflituar politicamente sem ser necessário acusar o outro lado daquilo que não é. O facto de o CDS, um dia, ter deixado de colocar BE e PCP nos extremos e de estes terem feito o mesmo ao CDS não significa que passaram a ter visões próximas do que é bom para o país, mas que entenderam que a urbanidade democrática deve impedir catalogações falsas e, na verdade, perversas. Isto não significa que não exista, neste momento, uma autêntica extrema-direita no parlamento, mas esse é outro assunto.

terça-feira, 19 de março de 2024

A derrota da esquerda

Na análise das eleições, os antigos companheiros do PS na geringonça, PCP e BE, acusam a governação socialista de ser responsável pelos resultados eleitorais favoráveis à direita. O que não avaliam, todavia, é a incapacidade de ambos, PCP e BE, de tirarem proveito dessa eventual má governação e de crescerem de modo significativo. Não perceberam que, ainda que diferentes, as narrativas em que assentam tanto o discurso como a acção de ambos deixou de ter capacidade para mobilizar o eleitorado. A visão do mundo que propõem perdeu pregnância junto dos eleitores e a derrota que a esquerda, no seu todo, sofreu pode ter, mais do que se pensa, uma natureza estrutural, a qual parece ignorada pelos três partidos tradicionais da esquerda portuguesa. O Livre é uma novidade e, por agora, está fora deste problema, embora não esteja imune.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O BE e a política externa

Entre várias outras medidas de política externa, o Bloco de Esquerda propõem, no seu programa eleitoral, a saída de Portugal da NATO e a defesa do desarmamento negociado e multilateral. O que o BE não explica é como Portugal, fora da NATO, se poderia defender caso fosse atacado e isso é uma possibilidade real nos dias de hoje. Certamente, os dirigentes bloquistas diriam que defendem um desarmamento negociado e multilateral. Esta seria a resposta, tendo em conta o que se escreve no programa eleitoral, mas isso, na verdade, não responde ao problema da defesa do país em caso de necessidade. 

Ora, por muito que Portugal pudesse defender semelhante posição, isso em nada alteraria a realidade geopolítica, apenas enfraqueceria Portugal. Não depende de Portugal a existência de potências inimigas que não se querem desarmar, antes pelo contrário. Não depende de Portugal nem da União Europeia, o facto de haver uma ameaça muito séria à segurança dos povos europeus. Defender o desarmamento negociado multilateral é defender rigorosamente nada, um exercício retórico que cobre uma posição absolutamente irrealista, fundado num dogmatismo ideológico que torna o BE incapaz de analisar a realidade geopolítica. Na prática, seria uma capitulação do país.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

A apropriação do Bloco de Esquerda

Um conflito entre o cantor Pedro Abrunhosa e o Bloco de Esquerda (BE) (aqui) torna patente um problema de política de propriedade da linguagem. O conflito surge devido ao slogan de campanha do BE, Fazer o que nunca foi feito, ter semelhanças com um título de um tema do cantor, Fazer o que ainda não foi feito. Abrunhosa considera que há uma "apropriação indevida da propriedade intelectual alheia". Apresentou queixa na Sociedade Portuguesa de Autores. 

O problema não está na semelhança entre as duas expressões linguísticas. Ambas as frases, além de correntes no uso dos falantes, inscrevem-se no domínio da retórica política e são tomadas como tendo o mesmo conteúdo semântico, podendo considerar-se equivalentes. O problema, porém, não é semântico, linguístico ou mesmo retórico.

O problema reside no facto de as duas expressões serem usos triviais da língua portuguesa, que qualquer português usa e usava ainda antes de Pedro Abrunhosa ter nascido. Se o facto de um autor mobilizar para título de uma obra uma expressão trivial da língua o torna proprietário da expressão, então alguma coisa de muito errado existe no código de propriedade intelectual. A língua não é um conjunto de palavras e de regras gramaticais, é também o uso que a comunidade de falantes faz dela, no qual se cristalizam inúmeras expressões de que ninguém é proprietário.

Imagine-se que alguém escreve um livro, lhe dá o título Isso não é boa ideia e regista o livro e o título numa sociedade de autores. A partir daí passa a ser detentor da propriedade intelectual de uma expressão que não inventou? Que ninguém mais pode, sem infringir a propriedade intelectual, usar essa expressão como título de qualquer tipo de obra, slogan político ou publicitário? A consequência da pretensão de Pedro Abrunhosa, caso ela esteja escudada na lei e ainda mais se o não estiver, parece absurda.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Marisa Matias e a social-democracia

Anda por aí um charivari porque Marisa Matias, candidata à Presidência da República, apoiado pelo BE, se disse social-democrata. Isto já tinha acontecido quando Catarina Martins tinha afirmado qualquer coisa semelhante. Então pessoas de direita acham que a senhora só pode ser uma embusteira. No entanto, apenas uma cultura política absolutamente anedótica pode achar que a social-democracia é de direita. Nunca o foi, desde a sua origem. Social-democrata era o partido a que pertenceu Karl Marx. Social-democrata era o partido a que pertenceu Lenine até à ruptura entre mencheviques e bolcheviques. Com o advento dos partidos comunistas e da III Internacional, os partidos operários dividiram-se em dois grupos. Os comunistas e os sociais-democratas. Estes dispensaram a revolução e, mais tarde a partir da célebre convenção de Bad Godesberg do SPD alemão, dispensaram o marxismo. No entanto, nunca a social-democracia deixou de ser de esquerda. Olhando para o BE, não parece haver qualquer razão para duvidar do que diz Marisa Matias, a não ser que se considere o PSD português um partido social-democrata, coisa que se deve a um equívoco e ao atraso com que Portugal chegou a um regime democrático. Com representação parlamentar em Portugal, não me parece existir um único partido de esquerda cuja praxis política seja outra coisa senão social-democrata. Isto é, defensora de reformas políticas visando uma certa, embora mitigada, igualdade e o Estado social. Há diferenças de intensidade e também no volume com que o discurso é debitado, mas nada disso altera a realidade política.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Uma regra sem sentido

Todos sabemos que as regras são para cumprir. Também sabemos que há regras estúpidas que devem ser abolidas, ainda por cima quando já houve para elas excepção. Não consigo entender o que vai na cabeça do PS, BE, PCP e PEV para bloquear a possibilidade dos novos partidos com apenas um deputado (Chega, IL e Livre) poderem participar no debate quinzenal com o primeiro-ministro. A posição é má por dois motivos. É intrinsecamente má porque a representação dos portugueses é mais importante do que um regimento burocrático da Assembleia. É instrumentalmente má porque faz destes partidos vítimas, ainda por cima vítimas de um regimento que já abriu excepções. Uma democracia representativa serve também para que as ideias de que não gostamos tenham voz, desde que os eleitores lhe tenham dado legitimidade. Esperemos que um novo regimento resolva este assunto.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Fim da Geringonça

António Costa e o PS tinham, quando fizeram um conjunto de reuniões com a esquerda e o PAN, a intenção de continuar a experiência da anterior legislatura? Não, não tinham qualquer intenção. As reuniões foram apenas uma encenação, à qual a rejeição de acordo escrito pelo PCP ajudou, para tentar mostrar ao eleitorado que AC e o PS não são pobres e mal agradecidos. Por que se comportam assim? Porque têm uma maioria absoluta sem a terem. Que hipótese têm o BE e o PCP de votar ao lado da direita uma moção de censura ou a rejeição de um orçamento sem que isso lhes leve parte do eleitorado? Tendencialmente, nenhuma. Na anterior legislatura, o PS e AC precisavam dos votos do BE e do PCP. Nesta, apenas precisam do medo.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O BE como força da estabilidade

Catarina Martins tem uma visão hiperbólica do papel do BE (ver aqui). Não que o BE tenha sido irrelevante na vida política dos últimos 4 anos. Não foi, mas também não foi a (sic) força da estabilidade. Foi uma das forças da estabilidade, juntamente com o PS e o PCP. No entanto, esta constatação não é o mais relevante. O mais relevante é que o próprio BE, ao usar a ideia de ser força da estabilidade, adoptou a linguagem dos partidos conservadores e reformistas. Que o BE e o PCP são, hoje em dia, forças da social-democracia, qualquer pessoa atenta e descomprometida com a guerrilha interpartidária já tinha compreendido. No entanto, tudo fica mais claro quando é confirmado pela linguagem dos dirigentes desses partidos.

sábado, 24 de agosto de 2019

António Costa e o Bloco de Esquerda

António Costa está a fazer ao Bloco de Esquerda (ver aqui) aquilo que fez a António José Seguro, ou que, anos antes, Paulo Portas tinha feito a Manuel Monteiro. Se quisermos interpretar a questão do ponto de vista moral, erramos o alvo. Quem quiser alcançar a glória dos altares, não vai para a política. O que está em jogo na política não é a fidelidade aos amigos mas o poder. Maquiavel explicou-o no início do século XVI. A bondade do ataque de AC ao Bloco de Esquerda só pode ser avaliado pela sua eficácia. Se conseguir limitar a influência do BE e alcançar uma maioria absoluta ou uma maioria relativa que dispense o BE, então AC fez o que devia. Se, contados os votos, o PS precisar do BE para sustentar um governo, cometeu um erro (embora não irreparável). O comportamento do actual primeiro-ministro é igual ao de qualquer outro político em luta pelo poder, seja em democracia ou em ditadura, seja de esquerda, centro ou direita. Faz e desfaz alianças conforme a necessidade e as conveniências. Em política, todos os amigos são de ocasião e qualquer companheiro não passa de um compagnon de route que se tentará alijar na primeira estação de serviço.

sábado, 22 de junho de 2019

Princípio de realidade

Agora que a legislatura se aproxima do fim, já se pode perceber qual foi a inovação essencial introduzida pela actual opção governativa. A grande inovação centra-se no facto de BE e PCP, apesar de dizerem que não, trem acabado por entrar para o consenso europeu. Durante este tempo todo não puseram uma única vez em causa, de forma séria, as políticas de austeridade e as regras do tratado orçamental, e nenhum orçamento que votaram pôs em causa essas regras e essa política. Pelo contrário. Nisto, não foram diferentes do Syriza grego e da sua experiência governativa. Parece que toda a gente se curvou ao princípio de realidade.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Fim dos exames do 9.º ano


Depois de acabarem com os do 9.º ano - e já acabaram com os do 4.º e do 6.º - é só mais um passo e acabam com os do secundário. A seguir, julgo que os senhores reitores não se hão-de opor, acabam-se também os exames nas faculdades. Eu sei que isto é uma instância da falácia do declive escorregadio, mas a realidade está a tornar-se falaciosa. A esquerda continua empenhadíssima em ajudar as elites sociais a ocuparem os melhores lugares nas faculdades, mas penso que tanto zelo ideológico a impede de pensar nas consequências reais dos seus devaneios para os filhos dos seus eleitores. De conquista em conquista até à ignorância absoluta.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Congressar


Muito gostam os partidos de congressar. A direita congressa mais do que a esquerda. E na esquerda nem toda a gente congressa. O BE convenciona. Talvez ainda não tenha idade para congressar, mas não vai nada mal. Já convencionou 10 vezes. Modesto, modesto a congressar é o PCP. Depois do 25 de Abril de 1974 apenas congressou 11 vezes, mas um congresso do PCP aproxima-se já de um conclave de cardeais e estamos em plena esfera do sagrado. O PS, talvez por estar mais próximo da direita, já se reuniu em congresso 21 vezes. Lá terá as suas razões, que eu, felizmente, desconheço. Ao CDS nem a sua exiguidade eleitoral o inibe de congressar a torto e a direito. O desejo de se juntarem já os levou 25 vezes a congressar, embora duvide que saibam para quê. Quem não tem mais nada para fazer é o PSD. Em 44 anos de democracia, já congressou 37 vezes. Aquilo pela S. Caetano à Lapa é assim: muda o tempo, faz-se um congresso; o Francisco partiu uma perna, congresso com eles; a Maria engravidou, toca a congressar para decidir quem é o pai. Somos uma pátria de congressistas.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Pancadinhas nas costas

Esta linguagem serve para quê? Todos nós temos o direito de julgar as agências de rating uma das dez pragas do Egipto. Pessoalmente, não lhes tenho particular estima. A questão, porém, é outra. De que me serve abominar com veemência e ardor - a líder do BE (ver aqui) é sempre veemente e ardorosa - essas terríveis entidades diabólicas, se depois a minha vidinha depende delas? Importante seria demonstrar que o país não depende do rating que essas agências malévolas lhe atribuem. Ora como o país parece que depende, como o BE e outros ainda não conseguiram explicar como podemos viver sem aquelas sentenças imorais que essas malditas górgonas se lembram de proferir a torto e a direito, o melhor é receber delas pancadinhas nas costas do que murros na cara.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Crony capitalism

Ver o arrufo entre o governo e o BE, sobre as rendas da EDP, como um problema interno das esquerdas é querer tapar o sol com a peneira. Independentemente do acerto da solução proposta pelo BE, o que ficou claro, mais uma vez, é a impotência, para não dizer cumplicidade, dos partidos do arco governativo perante os grandes interesses. O hooliganismo político que grassa nas redes sociais entretém-se muito com a divisão entre direita e esquerda. Na verdade, em Portugal, como em muitos outros países ocidentais, essa divisão é, na prática, fictícia. Governe a direita ou governe a esquerda, quem manda são os mesmos. Antes de haver espaço para um verdadeiro confronto entre projectos de direita e de esquerda é necessário limpar o terreno deste inaceitável conúbio entre política e interesses económicos. Só a partir dessa limpeza faz sentido discutir se a sociedade deve ser mais liberal ou mais social-democrata. Até lá, não passa de um crony capitalism, como se tornou a ver neste arrufo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ponto da situação

Eu não sei se as pessoas que apoiam a actual solução governativa - e eu sou das que apoia - já perceberam a situação. A Assembleia não é dissolvida pura e simplesmente porque o PSD está sem liderança. E se houvesse dissolução da Assembleia, a esquerda de pouco se poderia queixar. O PS não deixou de ser o que era, uma das traves que, juntamente com o PSD e o CDS, levaram o país aonde está. O PCP e o BE, que poderiam ter tido uma função regeneradora e limitadora dos velhos hábitos do PS, limitaram-se a ficar de fora a discutir a mercearia (eu sei a mercearia é importante). Tirando os assuntos de mercearia (torno a dizer que sei que a mercearia tem a sua importância), deram carta branca ao PS. Para dizer a verdade, acho que os pressupostos que criaram esta solução governativa arderam nos fogos de domingo. Não basta mudar uma ministra. Talvez - mas aqui não tenho qualquer certeza - a esquerda, tendo em conta situação do PSD, ainda tenha uma oportunidade de regenerar a sua solução de poder, mas muita coisa terá de mudar e mudar drasticamente. Se não, a legislatura não chega ao fim.