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quarta-feira, 24 de julho de 2024

Os jogos olímpicos e o ideal liberal

Estamos a dias da abertura oficial dos Jogos Olímpicos, mas algumas competições já começaram, como o futebol ou o râguebi de sete. Há uma mitologia em torno do ideal olímpico e dos esforços do Barão de Coubertin. Contudo, e apesar da inspiração nas olímpiadas gregas, os actuais Jogos Olímpico transportam uma visão moderna e de natureza liberal. O seu ideal é o da paz entre as nações, uma espécie de encarnação da paz perpétua kantiana. Os jogos desportivos seriam o outro lado do comércio mundial nessa prossecução de uma paz entre toda a humanidade. Como temos percebido nem o comércio entre as nações nem os jogos desportivos, entre eles os Jogos Olímpicos, têm conseguido assegurar a paz entre os homens. A realidade é mais tenebrosa que os nossos desejos. Seja como for, sempre podemos pensar que as bandeiras olímpicas são o símbolo desse ideal de uma paz perpétua que, numa caminhada infinita,  a humanidade acabará por realizar. Representam, mesmo se manipulados por interesses políticos, um princípio de esperança.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Um novo partido liberal

Desde que foi dada à luz a Iniciativa Liberal (IL), sempre pensei que muitas daquelas pessoas, caso tivessem vivido nos anos 70, teriam sido militantes dos partidos marxistas-leninistas e maoístas. Marxistas-leninistas e maoístas de ontem e liberais de hoje possuem a mesma pesporrência, a mesma rigidez ideológica e parecem crer que a sua ideologia não é uma ideologia mas a verdade sobre o homem, a sociedade, a economia e a vida. Há, em ambos os campos, uma visão cátara da realidade. Isto é, estamos perante visões religiosas da política, em que a ideologia é sentida como teologia, uma teologia dogmática.

Para confirmar a proximidade, chegou a notícia do projecto de um novo partido liberal, o Partido Liberal Social (PLS), promovido por dissidentes da IL (Público), o qual será, segundo os criadores, um partido verdadeiramente fiel aos princípios liberais, que terão sido, por certo, atraiçoados pelo partido liberal existente. Este tipo de acontecimento e de retórica é em tudo idêntico ao que acontecia nas velhas organizações de extrema-esquerda, que estavam, constantemente, em cisão, em busca dos mais verdadeiros e mais puros princípios marxistas-leninistas e maoístas. Os homens são seres religiosos, e quando expulsam a religião pela porta, ela entra pela janela.

terça-feira, 9 de abril de 2024

As liberdades individuais sob ataque

A polémica gerada pela a apresentação, por Passos Coelho, do livro Identidade e Família, uma obra colectiva gerada no seio da direita conservadora é um sintoma do ambiente em que se vive. A obra podia ser apenas a expressão de um ponto de vista sobre a sociedade. Ela é mais do que isso. É um contributo para um ambiente de tensão e que visa desgastar os valores liberais. Não ao nível económico, pois aí essa direita é completamente liberal, mas ao nível dos costumes. Nada disto seria problemático, caso se inserisse apenas num debate normal de ideias. Contudo, este movimento de guerra cultural visa restabelecer uma situação em que as opções dos indivíduos deverão regular-se por aquelas que um grupo pretende impor. A questão da família tradicional é emblemática. Segundo os autores, a família tradicional está sob ataque. A verdade é que ninguém é impedido de formar uma família tradicional, de viver a vida no âmbito dessa família. O que irrita estas pessoas é que essa família não seja obrigatória, que as pessoas sejam livres para escolher o modo como orientam a sua existência. Se a família tradicional passa por uma crise, isso não se deve a que ela esteja a ser atacada por quem quer que seja, mas porque as opções livres do indivíduos podem gerar essa crise. E é este o inimigo dessa direita. Já não é o comunismo ou o socialismo que incomoda essas forças, a não ser na fogo-de-artifício retórico, mas as liberdades individuais, o facto de que cada um possa orientar a sua vida sem o recurso a um tutor da sua consciência.

domingo, 7 de abril de 2024

A cólera e o temor dos tempos actuais

Teresa de Sousa, no Público de hoje, titula a sua crónica com um Estamos a viver a "normalização" da extrema-direita. Por "normalização" entende o crescimento dos partidos da extrema-direita e da direita radical um pouco por toda a Europa. Ora, esta constatação insere-se numa imensa literatura, jornalística e académica, sobre a ascensão do radicalismo de direita e da crise da democracia liberal. Talvez o melhor caminho para perceber o que se está a passar não seja focar o olhar na extrema-direita, mas na crise que atravessa a visão liberal tanto ao nível interno dos países democráticos como ao nível geopolítico, onde a ordem liberal está a ser consistentemente desafiada pelos regimes autoritários. 

A extrema-direita e a direita radical crescem porque as políticas liberais - nos seus diversos níveis e não apenas no económico - não estão a responder com eficácia às perturbações sentidas pela comunidade política. Se se definir como objecto da política a gestão da autoprodução contínua de uma comunidade soberana, percebe-se que aquilo que está a assustar as pessoas e as leva para os braços dos radicais de direita é o temor não apenas da perda de soberania da sua comunidade política, mas também a sensação de que essa comunidade está a perder a sua identidade e, por isso, a perder a continuidade, isto é, a morrer. E não importa, do ponto de vista político, se a essas identidades são imaginárias ou se essa perda é, também ela, imaginária.

O cosmopolitismo liberal fundado numa ideia de sociedade resultante de um contrato racional entre indivíduos, tradição que vai de Locke a Kant e aos liberais contemporâneos, está a ser incapaz de lidar com as pulsões comunitárias fundadas na história e na tradição, nas mitologias identitárias que alicerçam as comunidades políticas e que tinham a sua expressão política forte na figura do Estado-Nação. Nos anos noventa do século passado e no início deste, havia uma imensa literatura sobre a morte do Estado-Nação, nomeadamente, o europeu. Ora, talvez a notícia dessa morte fosse exagerada. O crescimento da extrema-direita e da direita radical parece a modalidade que tomou a resistência do Estado-Nação ao anúncio do seu desparecimento. Sem perceber isto, o projecto liberal, tomado na sua amplitude, será incapaz de lidar com a situação e perceber aquilo que nele está assustar as pessoas, levando-as a fazer escolhas que acabarão por deitar fora o bebé com a água do banho.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Do liberalismo em Portugal

Quando vejo loas ao liberalismo, tenho sempre uma grande vontade de rir. Não pelo liberalismo em si, mas pelo seu casamento com os portugueses. Neste artigo, JPP torna patente a realidade portuguesa. Está a falar do actual regime? Sim e não. Sim, porque as coisas funcionam assim. Não, porque já antes funcionavam exactamente no mesmo modo. No Estado Novo, na primeira República, na Monarquia liberal e, por certo, na Monarquia absoluta. Aquilo que se vitupera nos políticos do regime é o mesmo que se faz na vida privada, onde se pratica sem qualquer problema de consciência a pequena e a grande cunha, o favorzinho, a mão que lava outra mão, o dar uma palavrinha, o vê lá se conheces alguém, o olha preciso de um emprego para a pequena, etc., etc. O problema de Portugal não é o da ideologia de quem está no governo, mas o nosso profundo amor à família e aos amigos. Estes são muito mais reais do que as regras e os princípios abstractos que nos deveriam, de forma neutra e universal, guiar. Entre as abstracções e os interesses concretos, a maior parte dos portugueses não hesita e vocifera não me venham com coisas abstractas. Se o princípio abstracto mostra alguma resistência, logo se encontra modo de o contornar. Achar que se vai mudar é de uma inocência que se compreende nos verdes anos, mas que não passa de uma ilusão. Antes das pessoas pertencerem a partidos políticos, elas são portuguesas, beberam a cultura nacional e estão intimamente conectadas ao tecido social português com as suas regras ocultas e as suas leis de facto (embora não de direito).

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O nosso espírito liberal

Eu pensava que um país civilizado era aquele em que os políticos deixavam que cada um tivesse as suas crenças e se abstinham de dar às pessoas o que quer que fosse para acreditar. Depois de ler a oração de sapiência de JMT, descobri que tenho de ir pedir ao Costa que me dê alguma coisa em que acreditar. Portugal tem um longo contencioso com o espírito liberal.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

O comunismo neoliberal

Um acaso levou-me a ver no Youtube um vídeo de um economista brasileiro, falecido em 2013, que perorava sobre distinção entre liberalismo e neoliberalismo, salientando a bondade do primeiro e a malvadez do segundo. E o segundo era malvado porquê? Porque não era outra coisa senão uma forma de comunismo. Um comunismo disfarçado. E salientava o papel da senhora Thatcher na difusão dessa malvada forma que o comunismo arquitectou para se difundir pelo mundo inteiro. Dito de outra maneira, o neoliberalismo não é mais que a restauração vitoriosa da terceira internacional. Não admira que o Brasil seja aquilo que é.