Lê-se, num lead de uma notícia no site da SIC, o seguinte: Montenegro pôs carne a mais no assador. É bom dar dinheiro às pessoas, mas politicamente não era preciso. O PS não vai impedir o orçamento. O autor do excerto é José Miguel Júdice, tê-lo-á proferido num comentário na televisão. Não é o conteúdo que é interessante, mas o estilo, nomeadamente, a expressão Montenegro pôs carne a mais no assador. Esta expressão metafórica não provém de uma preocupação culinária, mas deriva do comentário futebolístico. Estas transferências linguísticas do futebol para a política estão longe de ser inconsequentes, mesmo que sejam espontâneas. Estabelecem uma analogia entre futebol e política e transferem para a política a relação hooliganesca que as claques dos clubes têm com o jogo. A degradação da política também acontece pela degradação da linguagem dos comentadores.
quarta-feira, 21 de agosto de 2024
domingo, 4 de agosto de 2024
Uma pugilista, política e ciência
Um sinal claro de que a política, tal como ela foi entendida durante muitos anos, mudou é o debate em torno da pugilista argelina Imane Khelif. A dimensão política do caso não se refere tanto à posição da Argélia em defesa da sua atleta, mas ao debate nas redes sociais - a voz do povo - em torno da identidade efectiva de Imane Khelif. É um debate que divide conservadores e liberais, estando parte significativa dos primeiros, na verdade os mais ruidosos e empolgados, absolutamente certos de que a atleta é transgénero. Até ao momento não existe qualquer prova de que a atleta o seja, mas provas são coisas que pouco contam para quem tem certezas absolutas.
Plausivelmente, podemos pensar que a tipificação idealizada do masculino e do feminino seja isso mesmo, uma idealização. Talvez o masculino e o feminino façam parte da mesma linha, na qual se poderão encontrar diferentes modalidades de ser homem ou mulher, havendo homens mais próximos de serem mulheres e mulheres mais próximas de serem homens. Isto, porém, é um representação impressionista e a questão é, na verdade, de natureza científica. Que ela se tenha tornado uma questão política - e uma questão política de primeira grandeza no debate social - significa que o conhecimento nos traz problemas muito desagradáveis para as certezas que nos guiavam.
Desde o momento que o homem começou a desenvolver mecanismos de investigação científica fundados na observação da realidade, a visão que o homem comum tinha do cosmos, da natureza e de si mesmo tem sido mostrada como falsa. Enquanto a investigação tocou nas concepções do universo, na compreensão da natureza, o homem comum - aquele que, nos dias de hoje, nas redes sociais, sabe tudo - não se sentiu ameaçado. Quando, porém, o conhecimento começa a desencantar as representações míticas que se tem da natureza humana, esse homem comum sente-se em pânico e reage com violência, tanto verbal como física.
Desde o século XVII, embora aqui com alguns limites, a ciência tem vivido em relativa tranquilidade. Mesmo o facto de ter permitido produzir a bomba atómica não assustou o homem comum. Quando ela se centra na natureza humana, quando olha para ela como um qualquer outro objecto de investigação, esse homem comum reage e esta reacção ganha contornos políticos. Ao politizar-se aquilo que é da ordem do conhecimento, caminha-se para o momento em que a ciência, toda ela, pode ser posta em causa. O medo que o homem tem de descobrir qual a sua verdadeira natureza e a impossibilidade de suportar a sua realidade, ao transformar-se em programa político, pode trazer ao mundo um novo período de perseguição da ciência e do conhecimento.
segunda-feira, 24 de junho de 2024
Psicopatas na política
João Carlos Melo, psiquiatra, é autor do livro Lugares escondidos da mente - do mais sombrio ao mais luminoso da mente humana. Fala de psicopatas (aqui). Descreve-os como pessoas malévolas, que não sentem culpa nem compaixão. Vivem entre nós, usando uma máscara, e algumas estão em lugares de poder. Diria que o poder - qualquer tipo de poder, mas, mais acentuadamente, o poder político - tem uma enorme capacidade de atracção deste tipo de personalidades. Basta olhar para a história, para os regimes políticos autoritários e totalitários e, de imediato, se descortina a presença de personalidades psicopatas.
A democracia liberal não é apenas uma forma de determinar quem governa sem passar pelo confronto violento. Representa também a possibilidade da avaliação moral dos candidatos ser um dado importante na escolha dos eleitores. No entanto, é apenas uma possibilidade e não uma condição necessária. Quanto maior é a polarização política, mais os eleitores se sentem atraídos por personagens políticas claramente psicopatas, as quais tudo fazem para intensificar essa polarização. Há uma sedução pelo mal que eles representam e que muitos eleitores esperam que façam cair sobre os do outro lado.
Em política, o problema não reside apenas na existência de políticos de personalidade psicopata. Ele está, de forma mais acentuada, na atracção dos eleitores por essas personagens, destituídas de culpa e incapazes de compaixão. A partir de certa altura há uma fusão entre o político de personalidade psicopata e os eleitores que vão perdendo, movidos pela paixão política, a capacidade de se pôr no lugar do outro, de sentir culpa pelas suas opções ou de ter qualquer compaixão por quem pensa de modo diferente. E isto está a acontecer em muitas democracias, e Portugal não é uma excepção.
domingo, 28 de abril de 2024
AD, política demográfica e imigração ponderada
Paulo Rangel, actual ministro dos Negócios Estrangeiros, propôs aos candidatos da AD para as eleições europeias que defendessem uma política demográfica comum e uma imigração ponderada (aqui). O centro direita parece estar a começar a compreender um problema que a esquerda ainda não entendeu. Trata-se de que a política visa, em primeiro lugar, assegurar a persistência no tempo de uma comunidade soberana. O impulso político não é, primeiramente, um impulso moral, mas digamos um impulso ontológico, ou na linguagem política dos dias de hoje um impulso existencial.
A esquerda continua afectada pela influência antipolítica do pensamento marxiano. O Estado e a política eram vistos como o resultado de um conflito de interesses insanável - a luta de classes - e o objectivo seria liquidar, a médio prazo, o próprio Estado, que é considerado a estrutura de dominação de uma classe sobre outra. Esta visão, proveniente do século XIX, lançou uma sombra até aos nossos dias, onde a política, para além da gestão do conflito entre classes, retornou em força. E retornou centrada naquilo a que podemos chamar a sua essência: assegurar, como se disse, a persistência no tempo de uma comunidade soberana.
Há duas coisas que parecem estar a atormentar parte substancial dos eleitorados europeus e que estão ligadas entre si e se conectam com a essência da política. Isso tem sido explorado, não sem êxito, pelas extremas direitas e pelas direitas radicais, através da questão da identidade das comunidades políticas e da sua soberania. A baixa natalidade de muitos povos europeus e a presença de fortes contingentes de imigrantes conduzem a uma percepção de que a comunidade soberana que a política deveria defender está em perigo. Em perigo porque não se reproduz o suficiente e em perigo porque está a ser infiltrada por culturas diferentes e que são sentidas como incompatíveis com a cultura original, digamos assim, dos povos que acolhem essa imigração.
Quando se trata de política não é relevante se as percepções são verdadeiras ou são falsas. O importante é o grau de disseminação dessas percepções na comunidade e, por isso, no eleitorado. O que a generalidade dos partidos democráticos tem feito é contrapor a esta questão eminentemente política respostas de ordem moral, as quais se manifestam em acusações de racismo e de xenofobia. O problema é que estas acusações não têm poder de penetrar no eleitorado e alterar o seu sentido de voto. Pelo contrário, estão a entregar os eleitores à radicalidade da direita racista e xenófoba. É altura de os partidos democráticos olharem para o problema de frente, perceberem que a política não trata apenas, nem essencialmente, da questão da distribuição dos rendimentos, e perceber por que razões o radicalismo de direita está a incendiar os eleitorados até há poucos anos tão moderados.
segunda-feira, 22 de abril de 2024
Política, percepções e factos
A política, muitas vezes, faz-se mais de percepções do que de factos. Uma das percepções que a direita tem passado e com um sucesso razoável é a incapacidade de Portugal crescer. As direitas radicais propagam que Portugal é mesmo um país em retrocesso com o 25 de Abril. O que mostram os factos? Segundo o Maddison Project, que reúne informação de longo prazo até 2018, Portugal foi o quatro país em que os rendimentos médios, na Europa Ocidental, mais cresceram desde 1974. Também os dados do World Economic Outlook do FMI, com informação do PIB per capita em paridades de poder de compra, desde 1980 até ao presente, mostram que Portugal está entre os cinco países que mais cresceram nesse período (ver aqui). Os factos estão longe das narrativas que as direitas, de modo diferenciado, põem a circular. Ora do ponto de vista político, é mais importante a percepção do que os factos. Mesmo que a nossa economia seja das que tem, desde 1974, um dos melhores desempenhos na Europa Ocidental, não é isso que está na mente de muitas pessoas, senão da maioria. Os resultados das últimas eleições mostraram, se fosse necessário mostrar, que as percepções em política tem mais impacto eleitoral do que os factos.