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sexta-feira, 26 de julho de 2024

Outro tipo de populismo em França

Continuemos com o populismo de esquerda. Vale a pena ler o artigo O problema Mélenchon, de Jorge Almeida Fernandes, no Público. Os resultados eleitorais em França redundaram numa grande confusão. Nenhuma força política tem uma maioria que a sustente no governo. A vitória da Nova Frente Popular é muito curta para ter qualquer veleidade para aplicar, por inteiro, o seu programa. Ora, Jean-Luc Mélenchon reivindica, desde o início, a aplicação total do seu programa. Na verdade, ele é um populista, cujo adversário principal está longe de ser a senhora Le Pen. Aquilo a que Mélenchon e a sua França Insubmissa se opõe com unhas e dentes é ao Presidente Macron e aos liberais. 

O mais sensato seria a coligação vencedora negociar um programa de governação com as forças apoiantes de Macron, um programa que resolvesse alguns problemas que suportam o apoio popular à extrema-direita, um programa em que liberais e socialistas, de vários matizes, cederiam, sem que nenhuma das partes tivesse de perder a face. Em nome da República, do Estado de direito e da democracia liberal. O grande obstáculo parece ser Mélenchon e o conflito que uma certa esquerda tem com o adjectivo liberal da democracia. Veremos se a vitória das esquerdas unidas não irá redundar numa pesada derrota.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

França, sensatez precisa-se

A estratégia política desenhada, há muito, por Macron teve agora o seu epílogo. Apostou em destruir a esquerda e a direita democráticas, substituir o centro tradicional por um centro de matiz liberal. As eleições de ontem mostraram o resultado. O centro esquerda está coligado, mas em minoria, com forças  de esquerda mais radicais, algumas a roçar o populismo. A extrema-direita, apesar da derrota, cresceu e é uma força política consolidada. Os liberais de Macron resistiram, mas não têm condições para formar governo, pois também foram derrotados. A solução política está longe de ser fácil e a França está à beira da ingovernabilidade, a não ser que, num passe de mágica, as forças do macronismo e as de esquerda encontrem a sensatez e a prudência suficientes para encontrar um caminho que possa evitar a deriva dos franceses para a extrema-direita. Talvez seja esperar demasiado da humanidade. A União Europeia pode respirar de alívio com a vitória da esquerda, mas veremos se a derrota da extrema-direita foi conjuntural ou estrutural.

domingo, 7 de julho de 2024

A doença francesa

Mais logo, saber-se-ão os resultados das eleições francesas. Uma coisa, porém, é certa. A democracia francesa está doente. Segundo uma notícia do Público, França prepara-se para uma noite de desacatos, mal sejam conhecidos os resultados eleitorais. Que umas eleições possam ser motivo de violência não é já um sintoma de uma doença é a própria doença. A invenção da democracia teve por uma das suas finalidades eliminar a violência política das sociedades. Quando a polarização política se exacerba até à ruptura entre as partes - ou entre os hooligans das partes, o que é a mesma coisa - é porque a doença está muito avançada.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Maus ventos de França

Os ventos vindos de França e que, saltando pelos Pirenéus, chegam até cá estão longe de ser os melhores. O centro político implodiu e o confronto eleitoral parece ser entre a extrema-direita do Rassemblement National de Marine Le Pen e a coligação que toma o nome de Nouveau Front Populaire, onde se coligam o centro esquerda, a esquerda e algum populismo de esquerda, cuja figura central é Jean-Luc Mélenchon e o seu partido La France Insoumise. O que se precisava neste hora era tudo menos um retorno ao ambiente político da primeira metade do século XX. O centro-direita, exterior ao partido de Macron, está completamente dividido, com gente a apoiar a extrema-direita, outros, como o ex-primeiro ministro Dominique Villepin, a abrir a porta para um apoio à Nouveau Front Populaire e outros sem saber o que fazer. O futuro da União Europeia começa a jogar-se em França no próximo domingo e os ventos não correm de feição.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Em França, a direita rende-se

Voltemos a França. Éric Ciotti, líder de Les Républicans (LR), um partido da tradicional direita democrática e europeísta francesa, anunciou que o seu partido se coligaria, para as próximas eleições legislativas, com o Rassemblment National (RN), de Marine Le Pen (aqui). A direita democrática está a ser devorada pela direita radical e nacionalista e, o que resta, está a render-se. 

O que está em jogo na política francesa já não é a questão da distribuição de rendimentos, problema que dividia direita e esquerda. O que está em causa são duas outras coisas. Por um lado, o conflito entre defensores de uma democracia liberal e do Estado de direito e defensores de, pelo menos, uma iliberalização da democracia e fragilização do Estado de direito. Por outro, o conflito entre os defensores da União Europeia e os defensores do soberanismo nacional e desmantelamento da União Europeia (aqui).

domingo, 9 de junho de 2024

O terramoto francês

O terramoto em França teve efeitos devastadores. Ainda continua a contagem de votos, mas as forças claramente alinhadas com o projecto europeu - os liberais de Macron, os socialistas, os republicanos e os verdes - somam, de momento, pouco mais de 41% dos votos. A extrema direita, somando a do partido da senhora Le Pen e o da sobrinha, Marion Maréchal, têm cerca de 37%. A convocação de legislativas pode tornar Paris, de novo, o epicentro de outro e mais doloroso terramoto, que abalará os fundamentos da construção europeia. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Inimigos

Há pequenos sintomas, a que não se dá atenção, mas que anunciam grandes catástrofes. Numa coexistência política civilizada, seria impensável governantes de um país pronunciarem-se sobre problemas que atingem outro. Isso, porém, acabou. Na verdade, a Itália actual e a França actual não são aliadas, são inimigas. Os políticos italianos estão a agir em conformidade.