Como se esperava, o resultado das eleições na Venezuela é obscuro, com as duas partes a reclamarem vitória, tendo o Conselho Nacional Eleitoral atribuído a vitória a Nicolás Maduro. Contudo, esta atribuição tem credibilidade nula, pois a norma, num regime autoritário, é de que quem está no poder ganha. E se lhe faltarem votos para isso, eles logo aparecerão. A Venezuela não iria ser uma novidade. Tudo como dantes.
segunda-feira, 29 de julho de 2024
domingo, 28 de julho de 2024
Trump diz ao que vem
Se os norte-americanos elegerem Trump e este acabar com a democracia, ninguém pode dizer que o candidato não deu sinais suficientes daquilo que pretendia fazer. Ora, o apoio que tem não mostra apenas o apoio a um candidato à Presidência, mostra que parte substancial do eleitorado dispensa a democracia, o trabalho de ir votar e de ser governada pela lei. A democracia parece ter cansado as pessoas e, pior, traz sempre a hipótese de o governante eleito pensar de um modo diferente. Para essa parte do eleitorado americano um despotismo fundado na arbitrariedade de um chefe é mais atraente do que o jogo regulado pela lei e com um módico de racionalidade. Trump, esse não esconde o que quer e ao que vem.
terça-feira, 7 de maio de 2024
O caso Ana Jorge
O caso da demissão de Ana Jorge da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é um péssimo sinal do modo com o actual governo entende a prática política. Não está em causa o facto da demissão em si. Mudou o governo e a Mesa da Santa Casa de Lisboa é um lugar apetecível. O que é inaceitável é o tom de violência usado no comunicado governamental. Um terrível ataque à competência de uma pessoa que é vista, geralmente, como uma servidora pública exemplar. Não bastando isso, depois de demitida foi ameaçada que lhe seria posto um processo crime por abandono de funções se ela não continuasse nas funções de que tinha sido demitida. Este comportamento é inexplicável numa democracia liberal, e deixa perceber a existência, mesmo na direita democrática, de fortes tiques autoritários e justicialistas.
terça-feira, 30 de abril de 2024
Um declive perigoso
Se faltassem sinais, e não faltavam, de que o Chega visa implodir o sistema democrático tal como está concebido, o caso do voto de condenação do Presidente da República pelas declarações sobre as reparações coloniais está aí. As declarações de Marcelo Rebelo de Sousa são inapropriadas tanto pelo contexto como pela forma, mas inscrevem-se, em última análise, no âmbito da liberdade de expressão. Mas mais do que o voto de condenação é o discursos usado - traição à pátria - e a sugestão de poder levar o Presidente à Justiça por esse putativo crime. (aqui) Ventura e os seus não perdem uma oportunidade para escavar as instituições e para criar uma narrativa inaceitável numa democracia civilizada, uma narrativa em que uma opinião é catalogada como um acto de traição e que um Presidente da República eleito pela própria direita é sugerido como um inimigo. É possível que muitos políticos democráticos, tanto da direita como da esquerda, não levem estas diatribes a sério e, de modo condescendente, encolham os ombros perante mais uma traquinice do Chega. Um dia destes podem acordar numa situação muito desagradável.
quinta-feira, 18 de abril de 2024
A democracia e os portugueses
Num estudo agora publicado do ISCSP, 87% dos portugueses afirmam preferir a democracia representativa. O resultado parece, à primeira vista, bom. Contudo as alternativas também não obtiveram um mau score. Um governo de especialistas seria bem recebido por 70% e um governo autoritário de um homem forte, sem recurso a eleições, por 47%. Isto significa que a democracia é preferível, mas, se ela acabar, uma parte substancial dos portugueses apenas encolherá os ombros como se nada se passasse. Uma nota interessante é que 55% dos que veriam com bons olhos um governo autoritário não têm qualquer interesse pela política. Isto é um retrato da fragilidade da democracia portuguesa. A conjugação de uma população que aceita a democracia, mas que não lhe é fiel, com a despolitização de parte significativa dessa população são o caldo cultural que alimenta os sonhos autoritários da extrema-direita e dos candidatos a salvadores da pátria.
quinta-feira, 11 de abril de 2024
A cruzada de Passos Coelho
Pedro Passos Coelho surge como um cruzado em guerra contra os infiéis. Contudo, estes infiéis já não são a esquerda, mas aqueles que se reconhecem numa visão liberal dos comportamentos humanos. Os salamaleques de Ventura são o sinal dessa reorientação do antigo primeiro-ministro, que se está a tornar a nova esperança não do conservadorismo democrático, mas daquele que nunca conviveu bem com a democracia liberal. A intervenção de Passos Coelho no lançamento do livro Identidade e Família gerou uma clara ruptura na direita portuguesa. Nem a Iniciativa Liberal nem parte substancial do PSD se reconheceram nos valores que estão subjacentes a essa intervenção. Neste momento, parece que o grande objectivo de Passos Coelho é fazer bascular toda a direita para as portas de uma visão autoritária dos costumes e da sociedade, uma visão que tornaria indistinta a direita radical de Ventura e as direitas democráticas. Apesar da forte contestação surgida na militância da direita democrática, nada garante que Passos Coelho não ganhe a sua cruzada contra a vida liberal e as direitas democráticas.