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domingo, 18 de agosto de 2024

Turismo de massas

No Público, um artigo de Michael Hagedorn, consultor no âmbito da cooperação internacional, tem o sugestivo título de Lisboa prostituída. Torna patente como a orientação de Portugal para o turismo de massas está a matar a sua capital e, por certo, começa a matar outras cidades. Os portugueses têm um talento inexcedível para repetir os erros do passado. Foi o ciclo das especiarias, foi o ciclo do ouro do Brasil e, agora, temos as novas especiarias e o novo ouro do Brasil, o turismo de massas. Como nas épocas anteriores, alguém vai ganhar muito dinheiro e, a generalidade dos portugueses, vai ficar com uma vida pior. Há uma inclinação nacional para a facilidade. O pior, porém, são as elites políticas que, em vez de contrariarem essa inclinação, são o seu suporte e a sua força dinamizadora. O que iremos inventar, para fugir àquilo que é exigente, quando o ciclo do turismo de massas se fechar?

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Política, percepções e factos

A política, muitas vezes, faz-se mais de percepções do que de factos. Uma das percepções que a direita tem passado e com um sucesso razoável é a incapacidade de Portugal crescer. As direitas radicais propagam que Portugal é mesmo um país em retrocesso com o 25 de Abril. O que mostram os factos? Segundo o Maddison Project, que reúne informação de longo prazo até 2018, Portugal foi o quatro país em que os rendimentos médios, na Europa Ocidental, mais cresceram desde 1974. Também os dados do World Economic Outlook do FMI, com informação do PIB per capita em paridades de poder de compra, desde 1980 até ao presente, mostram que Portugal está entre os cinco países que mais cresceram nesse período (ver aqui). Os factos estão longe das narrativas que as direitas, de modo diferenciado, põem a circular. Ora do ponto de vista político, é mais importante a percepção do que os factos. Mesmo que a nossa economia seja das que tem, desde 1974, um dos melhores desempenhos na Europa Ocidental, não é isso que está na mente de muitas pessoas, senão da maioria. Os resultados das últimas eleições mostraram, se fosse necessário mostrar, que as percepções em política tem mais impacto eleitoral do que os factos.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

10 de Junho

Já vi aqui encómios e vitupérios ao discurso do JMT. Fui lê-lo. Apenas o expectável tendo em conta a personagem. O meu problema, porém, não é com o discurso mas com o próprio dia. O 10 de Junho nasceu como feriado municipal de Lisboa, durante os fervores da primeira República, em que esta liquidou uma série de feriados religiosos e deu permissão aos municípios para criarem o seu feriado. O Estado Novo nacionalizou-o, denominou-o dia da raça e louvou-se insistentemente nele. A democracia fez do 10 de Junho um dia pitoresco, na melhor das hipóteses. Por mim acabava com ele, devolvia um feriado à Igreja e, se se quer comemorar ritualmente Portugal, sempre podemos usar o 1.º de Dezembro (o da libertação dos Filipes) ou, de preferência, o 5 de Outubro, dia do Tratado de Zamora, pelo qual nos tornámos independentes. Neste caso, contentavam-se republicanos e monárquicos.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

1.º de Dezembro

Gosto de feriado do 1.º de Dezembro. Isto não significa que não goste de Espanha. Gosto e muito, mas gosto mais de não ser espanhol. Prefiro os defeitos dos portugueses aos defeitos dos castelhanos. Talvez seja por estar habituado a esses defeitos, mas a verdade é que os nossos, apesar de contra eles protestarmos todos os dias, há muito que não nos dão uma guerra civil, nem sustentam uma cáfila de senhoritos a fingir que têm voz grossa, como se tem vista do outro lado da fronteira com o triste caso da Catalunha. Por isso, estou obrigado perante os conjurados e o golpe ilegal do 1.º Dezembro, o qual pôs as coisas no devido lugar.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A grande coligação

Depois da trágica saga dos fogos, parece que ainda não se percebeu nada, rigorosamente nada. Nem à esquerda, nem à direita, nem nos independentes, nem nos apolíticos. O problema não é da prevenção, nem do combate, nem da floresta, nem da ordenação do território, nem da desertificação. Tudo isso é problemático, muito problemático, mas o principal problema não está aí. Está na leviandade que tomou conta de tudo, de todas as instituições. Raramente se leva alguma coisa a sério. Raramente há autoridade política. Raramente há pensamento sério. Tudo é, neste país, circunstancial. Tudo é uma encenação medíocre para que os medíocres, independentemente da cor do governo, governem. As instituições promovem medíocres. E, como se sabe, a má moeda expulsa a boa. Os medíocres conspiram, protegem-se, tornam a vida insuportável aos que tentam pôr um pouco de ordem e de sensatez nas instituições. Os medíocres apropriaram-se dos partidos e constituem agora uma verdadeira coligação que governa Portugal. Esta coligação não é de esquerda, nem de direita. Ela é de todas as cores. Os governos caem, mas a coligação mantém-se e governa o país. É inexorável. Liquida quem mostre o mais leve resquício de talento. Quando se fala em meritocracia em Portugal dá-me vontade de rir. Um país entregue à estupidez manhosa, à impreparação, ao compadrio dos medíocres. Um país onde se cultiva estultícia para se colher desgraça. Esse é o grande problema. Tudo isto é muito, muito cansativo.