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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Presidenciais, mais 10 anos?

Duas notícias do Público trazem de volta os cenários para as próximas eleições presidenciais. Numa, Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, avança com o nome de Leonor Beleza como candidata na área do centro-direita (aqui), tornando ainda patente que o PSD tem um bom stock de presidenciáveis, Marques Mendes, Passos Coelho e Durão Barroso. Na outra, refere-se que há, na esquerda, uma vontade de encontrar um candidato comum, mas que BE e Livre não vêem com bom olhos a candidatura de Mário Centeno (aqui). Outros nomes apontados na área socialista, como António Vitorino ou Santos Silva, são também problemáticos e pouco atraentes para o eleitorado. A direita detém a presidência da República há 20 anos e, com a ausência dos candidatos naturais da esquerda, António Guterres e António Costa, prepara-se para mais dez anos de presidência.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Extrema-direita e corrupção moral

A direita, não poucas vezes, indigna-se perante aquilo que classifica de superioridade moral arvorada pela esquerda. O problema é que não hesita em dar argumentos a essa esquerda, também ela, não poucas vezes, imoral. Neste momento, a Suécia tem um governo de direita, uma coligação de três partidos de centro-direita, com o apoio parlamentar dos Democratas Suecos, um partido de extrema-direita. Devido ao acordo com a extrema-direita está em estudo uma lei que obriga os funcionários públicos (médicos, professores, funcionários de bibliotecas, etc., etc.) a denunciar imigrantes ilegais. Há uma enorme contestação das organizações desses sectores de servidores públicos da comunidade (aqui).

A lei, se vier a existir, é moralmente repugnante. Não apenas por atingir os mais fracos (os imigrantes ilegais), mas por transformar os servidores públicos em denunciantes, numa espécie de informadores de uma qualquer polícia de Estado de um regime autoritário ou totalitário. A influência da extrema-direita não tem apenas impacto político, um impacto que corrói as instituições democráticas e o Estado de direito. Essa influência corrói o carácter das pessoas, degrada-as moralmente, impõe-lhe deveres que qualquer pessoa moralmente sã terá vergonha de cumprir. Uma das vantagens que a democracia liberal tem, perante qualquer outro regime, é que não obriga as pessoas a actos heróicos e a correr riscos existenciais para poderem manter a dignidade moral. E será isso que a possível lei obrigará aos funcionários públicos, caso estes não queiram sentir-se com seres moralmente abjectos.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Paulo Macedo

O poder é um cimento que solidifica as relações nas famílias políticas. Luís Montenegro que estava a caminho de ser devorado pelo seu partido recebeu o poder caído do céu aos trambolhões. Por enquanto, e com a perspectiva de aprovação do próximo orçamento, Montenegro pode dormir sossegado. Imaginemos, porém, que a governação, devido à falta de apoio no parlamento, começa a colapsar. O PSD terá alguém para o cargo de primeiro-ministro que consiga penetrar no eleitorado? 

Há um nome que parece viver oculto no mundo da política, nem se sabe sequer se tem ambições nessa área, mas tudo o que faz é feito com êxito. Paulo Macedo pôs o Fisco a funcionar, foi um competente Ministro da Saúde e livrou a Caixa Geral de Depósitos dos sarilhos que a incúria e irresponsabilidade políticas a colocaram. Pode não ser um comunicador extraordinário, mas também Cavaco Silva não o era. Se Paulo Macedo decidisse entrar a sério na política não teria dificuldade em ter a direita a seus pés e, plausivelmente, parte substancial do país. Muito provavelmente seria um excelente primeiro-ministro. 

domingo, 21 de julho de 2024

Iniciativa Liberal, dois equívocos

A Iniciativa Liberal, no actual momento, vive fundada em dois equívocos. Um conjuntural e outro estrutural. O equívoco conjuntural diz respeito à sua liderança. Desde o primeiro momento e devido à sombra do auto-afastado líder Cotrim Figueiredo, Rui Rocha mostrou ser o homem errado num lugar para o qual não tem, como se tem visto, talento. Um erro de casting. O equívoco estrutural diz respeito ao seu posicionamento político, vincadamente à direita, tão à direita que dissidentes do partido não têm qualquer pudor em enfileirar na extrema-direita. Os partidos liberais europeus são tendencialmente centristas e podem coligar-se com a esquerda, como acontece, neste momento, na Alemanha, onde os liberais estão no governo com os sociais-democratas (irmãos dos socialistas portugueses) e os verdes. Seria inimaginável em Portugal.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Um ataque terrorista desmantelado

A notícia de que a Guardia Civil (Espanha) desmantelou uma rede terrorista ligada ao Estado Islâmico que preparava um grande ataque contra contra o Real Madrid e os seus adeptos (aqui) é mais um sinal sobre uma realidade política que, por diversas razões, uma parte dos actores políticos - nomeadamente, à esquerda - se recusa a ver. Uma parte do Islão político, não diferençável do Islão religioso, está em guerra aberta contra o Ocidente. É verdade que os muçulmanos não são todos terroristas, nem serão a maior parte. Também é verdade, todavia, que o Islão contém em si uma legitimação para esta guerra e isso é um problema político sério. 

Aquilo que é hoje minoritário, pode ser amanhã um movimento de massas de grande amplitude contra o modo de vida ocidental. Foram os sectores democráticos de direita e de esquerda que entregaram à extrema-direita uma bandeira que lhe dá votos e que tem todos as possibilidades, nas mãos de extremistas, de criar grandes perseguições. Não há incompatibilidade entre as pessoas que praticam a religião muçulmana e os valores demo-liberais, mas parece haver uma clara incompatibilidade entre o Islão e esses valores.  O problema não é de fácil solução, mas os partidos democráticos terão de o enfrentar, pois se o não fizerem em alguns países da Europa, será a extrema-direita a fazê-lo.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Em França, a direita rende-se

Voltemos a França. Éric Ciotti, líder de Les Républicans (LR), um partido da tradicional direita democrática e europeísta francesa, anunciou que o seu partido se coligaria, para as próximas eleições legislativas, com o Rassemblment National (RN), de Marine Le Pen (aqui). A direita democrática está a ser devorada pela direita radical e nacionalista e, o que resta, está a render-se. 

O que está em jogo na política francesa já não é a questão da distribuição de rendimentos, problema que dividia direita e esquerda. O que está em causa são duas outras coisas. Por um lado, o conflito entre defensores de uma democracia liberal e do Estado de direito e defensores de, pelo menos, uma iliberalização da democracia e fragilização do Estado de direito. Por outro, o conflito entre os defensores da União Europeia e os defensores do soberanismo nacional e desmantelamento da União Europeia (aqui).

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Política, percepções e factos

A política, muitas vezes, faz-se mais de percepções do que de factos. Uma das percepções que a direita tem passado e com um sucesso razoável é a incapacidade de Portugal crescer. As direitas radicais propagam que Portugal é mesmo um país em retrocesso com o 25 de Abril. O que mostram os factos? Segundo o Maddison Project, que reúne informação de longo prazo até 2018, Portugal foi o quatro país em que os rendimentos médios, na Europa Ocidental, mais cresceram desde 1974. Também os dados do World Economic Outlook do FMI, com informação do PIB per capita em paridades de poder de compra, desde 1980 até ao presente, mostram que Portugal está entre os cinco países que mais cresceram nesse período (ver aqui). Os factos estão longe das narrativas que as direitas, de modo diferenciado, põem a circular. Ora do ponto de vista político, é mais importante a percepção do que os factos. Mesmo que a nossa economia seja das que tem, desde 1974, um dos melhores desempenhos na Europa Ocidental, não é isso que está na mente de muitas pessoas, senão da maioria. Os resultados das últimas eleições mostraram, se fosse necessário mostrar, que as percepções em política tem mais impacto eleitoral do que os factos.

sábado, 20 de abril de 2024

A direita antes e depois do 25 de Abril

Vi um excerto de uma entrevista a Miguel Caetano, um dos filhos de Marcello Caetano, o Presidente do Conselho deposto em 25 de Abril. Miguel Caetano diz claramente que o pai não era um democrata. A transição à democracia que poderia ter sido iniciada com a chamada Primavera marcelista não existiu não apenas por causa da guerra colonial, mas também porque a direita portuguesa, e Marcello Caetano era um símbolo dessa direita, não tinha propensão democrática. Não a incomodava as perseguições políticas, a existência de censura e de uma polícia política, a ausência de liberdades civis e políticas. 

O 25 de Abril tornou possível a emergência de uma direita democrática, preocupada com as liberdades. Perturbante, porém, é o facto dessa direita, agora no governo, estar em refluxo e a velha direita autoritária ter encontrado um modo de expressão e de propaganda constante, com uma postura, porém, muito diferente da postura dos dois Presidentes do Conselho da ditadura, Salazar e Caetano. Nenhum deles era um populista. Pelo contrário, tinham a velha gravitas dos antigos homens de Estado, enquanto o actual condottiero dessa direita não democrática é o contrário de tudo isso, uma figura burlesca que parece representar não uma tragédia, mas uma farsa.

sábado, 6 de abril de 2024

O 25 de Abril e as adversativas da direita

Três partidos da direita - IL, CDS e Chega -  pretendem incluir o 25 de Novembro nas comemorações do cinquentenário do  25 de Abril.  Isto mostra, mais uma vez, que pelo menos uma parte da direita portuguesa tem dificuldades em lidar com a ruptura trazida pelo 25 de Abril de 1974 e o subterfúgio do 25 de Novembro é uma forma de colocar reticências a essa transição. Contudo, o 25 de Abril representa apenas o derrube de um regime autoritário, no qual qualquer democrata se pode reconhecer sem ter de usar adversativas. 

O poema de Sophia de Mello Breyner Andresen diz o essencial do que foi o 25 de Abril e nesse dizer não se vê necessidade de colocar o 25 de Novembro, nem, já agora, o 28 de Setembro e o 11 de Março: Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo. O 25 de Abril é apenas esse dia inicial inteiro e limpo. Depois, as várias partes (e foram mesmo várias e não apenas uma) foram-no manchando, cada uma à sua maneira, mas essas manchas são a história. 

Há, contudo, uma clara razão para que parte substancial da direita necessite de adversativas, precise do mas do 25 de Novembro (o qual, e não por acaso, foi obra da esquerda moderada). No dia 25 de Abril, a direita política está toda ao lado da ditadura. Há algumas raras e muito honrosas excepções, mas o grosso das hostes políticas da direita portuguesa não sentia qualquer atracção por um regime democrático-liberal, apoiava a política colonial, a existência de censura e polícia política, a perseguição dos oposicionistas, não se mostrava sensível à existência de pluralismo político e por aí fora. É este o problema que está na base do culto do 25 de Novembro por parte da direita, culto que, por acaso, não é partilhado por aqueles que fizeram os 25 de Novembro.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

A deriva da direita democrática

Não foi a intervenção de Passos Coelho sobre a relação entre imigração e insegurança, mas o apoio que está a receber no âmbito da direita moderada que mostram a deriva dessa direita em direcção às causas da extrema-direita populista (aqui). A direita moderada - mas também Passos Coelho, radicalizado há muito do ponto de vista económico e, agora, parece que do securitário - sabe que é falsa essa relação. Contudo, ela pode funcionar na exploração das emoções e agregar votos. Ir-se-á assistir a um resvalar cada vez mais acentuado da direita democrática da esfera da racionalidade para a das emoções, território de predilecção do populismo (escutar aqui a interessante entrevista à socióloga franco-israelita Eva Illouz). Infelizmente.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Um grande silêncio

As declarações de Trump sobre a NATO trouxeram à luz o quão irrisório é o debate político nacional em vésperas de eleições. A questão política central, da qual todas as outras dependem, é a escaldante situação internacional. Ninguém quer falar disso, ninguém quer falar de que nos anos da nova legislatura podemos estar metidos em grandes sarilhos, os quais não dependem de nós, mas que nos podem envolver de um momento para o outro. Ninguém quer falar de que teremos de fazer enormes esforços militares, a começar pelo orçamento, mas também na reorganização das forças armadas. Ninguém quer falar da Europa, do facto dela estar rodeada de perigos por todos os lados e minada por dentro. Discute-se a situação do país como se ele fosse uma ilha rodeada por um oceano impossível de navegar. A direita vive fixada nos impostos, como se isso fosse uma terapia para os males que nos atormentam. A esquerda vive em retracção, tentando gerir as perdas. A extrema-direita promete tudo a todos e o seu contrário, na ânsia de criar condições para liquidar a democracia liberal. Ninguém, todavia, está disponível para dizer a verdade daquilo que está à porta. Sobre a realidade internacional, apenas um grande silêncio.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A trumpização da direita portuguesa

A deslocação de deputados do PSD para o Chega é apenas um episódio de uma fuga de militantes dos partidos da direita democrática - PSD, IL e CDS - para a efervescência populista e demagógica liderada por André Ventura. Contudo, não são apenas militantes e quadros que se transferem. Também uma parte do eleitorado da direita se está a deslocar, a grande velocidade, para as hostes de Ventura. Este fenómeno, contudo, não é inédito. Trata-se de uma trumpização da direita portuguesa. Nos EUA, os dois grandes partidos são uma espécie de coligação com diversas tendências, por vezes, com mais diferenças do que pontos de convergência. O que aconteceu ao Partido Republicano foi uma de rendição do partido e do eleitorado aos sectores mais extremistas e populistas, sectores que se aproximam perigosamente de posições antidemocráticas. Antes de Trump, esses sectores abrigavam-se sob o chapéu do Tea Party. Depois, Trump deu voz a essas forças e foi conquistando o partido, liquidando o republicanismo conservador democrático e federou os militantes e o povo de direita numa frente que raia a intolerância e que ameaça as instituições democráticas. Esse fenómeno não se circunscreveu aos EUA. Estamos a assistir à sua reprodução em Portugal. Mais rapidamente do que se pensava, o Chega está a federar a direita e o povo de direita. Como não existe um grande e único partido da direita em Portugal, como acontece nos EUA com os republicanos, o Chega está a destruir o PSD e a IL, depois de ter liquidado o CDS, para preparar o confronto com a esquerda. Não se está a ver como é que a dupla Luís Montenegro e Nuno Melo, nesta reedição da AD, poderão obstar à trumpização da direita e do clima político em Portugal. O preço disto será idêntico ao que se observa nos EUA. A ideia de adversários políticos é substituída pela de inimigos políticos. A partir daí só se pode esperar o pior.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A loucura na Nicarágua

Se alguém pensava que a idiotice sobre o coronavírus era o monopólio de certo tipo de direita, então desengane-se. À esquerda também há quem desdenhe da racionalidade e não hesite em colocar em perigo as populações. O sandinismo da Nicarágua está ao nível de Bolsonaro e das seitas neopentecostais que o apoiam, mas como não existem os contrapoderes que ainda subsistem no Brasil, a situação pode tornar-se explosiva (ver aqui). Não há ideia mais estapafúrdia - ou criminosa - do que considerar o covid-19 como o ébola dos ricos. Assim como aconteceu em Itália e no Brasil, tanto quanto me apercebi, também na Nicarágua a Igreja Católica tem sido de uma prudência exemplar, fechando as Igrejas e tentando mesmo contribuir para minimizar os efeitos possíveis da pandemia, o que tem sido contrariado pelas autoridades. O mais dramático é que nada disto fará com que os adeptos tanto de Bolsonaro como os dos sandinismos vários da América Latina se tornem mais razoáveis.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Uma paixão esquecida

Depois do elogio feito pelo Finantial Times à política de António Costa e à solução governativa encontrada, começou a correr, num mesmo post, o elogio a Costa mas também um outro, feito em 2007, a Sócrates. A comparação vem de gente ligada à direita e faz parte da campanha contra o actual primeiro-ministro. Só quero recordar uma coisa. Em 2007, perante o naufrágio da direita parlamentar que então se vivia, a direita social andava embevecidíssima com Sócrates. Delirava com os cortes que ele fazia nos serviços sociais, com o ataque impiedoso aos professores e outras malfeitorias que ele distribuía pelas gentes em maiores dificuldades. Exultava com a voz grossa e a mão dura do então primeiro-ministro. Como a memória é selectiva, convém recordar essa paixão entre a direita social e o Sócrates dos primeiros tempos.

sábado, 6 de outubro de 2018

900 anos de História


Eu sei que o pessoal de direita acha a esquerda portuguesa abominável. Também sei que o pessoal de esquerda acha a direita portuguesa abominável. Também sei que nem uma nem outra são particularmente brilhantes. A verdade, porém, é que são ambas civilizadas, não são maximalistas, que contribuem ambas para o apaziguamento social. E enquanto o mundo anda por aí radicalizado, com os ódios a crescer a olhos vistos (veja-se o Brasil, mas não só), por cá a vida é tranquila, as pessoas respeitam-se e, no fundo, sabem que ceder um pouco ao outro lado é melhor do que exigir tudo e lançar o país na barafunda. E a esquerda e a direita têm feito isso em Portugal. Somos velhos e 900 anos de história devem ter servido para alguma coisa.

sábado, 4 de novembro de 2017

Ferramentas

O processo de dessacralização das sociedades ocidentais foi acompanhado por um processo de sacralização das ideologias políticas. Esquerda e Direita são vistas, pelos respectivos adeptos, como espaços sagrados, nos quais cabem, por certo, diversos credos e diferentes liturgias. Uma leitura racional da dicotomia política mostra-nos, porém, que Direita e Esquerda são meras ferramentas que certas sociedades, como um todo, usam com a finalidade da autopreservação e da persistência no tempo.

O carácter sacral desses espaços devia chamar a atenção, de quem olha racionalmente a questão política, para o investimento que a espécie faz, em certo tipo de sociedades, nessa organização dicotómica. A sua sacralização não é outra coisa senão a criação de uma ilusão que visa preservar essas ferramentas. No entanto, essa ilusão revela uma outra coisa.

Direita e Esquerda não têm, por si mesmas, qualquer valor intrínseco. O seu valor é meramente instrumental. São ferramentas que os cidadãos, enquanto comunidade, usam para regular a sua vida comum. Talvez a maior parte dos cidadãos necessite da ilusão, necessite de perceber na Direita ou na Esquerda um valor sagrado. Se queremos, porém, pensar o fenómeno político, devemos deixar de lado a ilusão e olhar Esquerda e Direita como o esquadro ou o formão dos carpinteiros. Meras ferramentas a usar. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Hooliganismo político

As redes sociais são um lugar interessante para observar o hooliganismo político, tal como o descreve Jason Brennan. Em linhas gerais, podemos descrever o hooliganismo político como um interesse vivo pela política marcado pela incapacidade de, falando à maneira kantiana, se colocar no lugar do outro e conseguir perceber e explicar as crenças desse outro. Olhando para as redes sociais, a generalidade dos que se exprimem sobre questões políticas são, na verdade, hooligans. Há excepções, mas diminutas. Há hooligans de direita e hooligans de esquerda. Em ambas as facções, há hooligans mais amenos e hooligans mais exaltados. Uma das coisas mais curiosas é perceber a diferença entre os exaltadas hooligans de esquerda e os exaltados hooligans de direita. A exaltação dos hooligans de esquerda é sempre mais ideológica. Fazem acusações aos políticos do outro lado com epítetos marcadamente políticos. Estes epítetos políticos são atirados, claro, para desqualificar as pessoas a quem são dirigidos. Já o hooliganismo de direita usa menos epítetos políticos e mais ataques ao carácter dos políticos adversários. Tudo isto, claro, é uma tendência, pois encontramos os dois tipos de ataque em ambos os lados. O hooliganismo de esquerda ataca politicamente para rebaixar a pessoa. O hooliganismo de direita ataca a pessoa para a rebaixar politicamente. Complementam-se.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Um jogo

O espectáculo, embora triste, não deixa de ser interessante. Entrámos em plena intifada. As partes, armadas de pedras, ululam e arremessam-nas sobre o lado contrário. Uns estão mais defensivos, nos outros subiu a adrenalina. Uns indignam-se pelo que não foi feito no passado; os outros, pelo que não foi feito no presente. Os que se indignam pelo passado são cegos para o presente. Os que se indignam pelo presente são cegos para o passado. O espírito exaltado que pastoreou a primeira República está, mais uma vez, à solta. Uns pensam: agora é que damos cabo deles, carregue-se fundo; os outros cogitam: há que aguentar o embate até que a maré vire. Nada disto tem a ver com as mortes, nem com a floresta, nem com o país. É um velho ódio que começou bem antes da primeira República. Talvez tenha começado com D. Miguel e D. Pedro, ou, o mais certo, ainda antes, com o Pombal e os Távoras. É um jogo. Disputa-se, pedras na mão, quem fica no lugar do Marquês e aqueles que se hão-de queixar de um azar dos Távoras. Não há assassinatos porque passou de moda. O resto? Pouco interessa, até porque as partes são o espelho uma da outra.

sábado, 7 de outubro de 2017

A direita e o PCP

A direita portuguesa é devota, muito devota de S. Jerónimo. Acende velas ao santo. Reza-lhe por um milagre. Não tarda, fará procissões e romarias. Consta que o santo, além de santo, é comunista, mas a direita portuguesa adora comunistas. À séria. Ela adora comunistas, daqueles muito proletários, de fato-macaco e revolução na boca, como quem reza um rosário. Adora, mesmo. Para o provar, vendeu a EDP ao Partido Comunista Chinês, através de uma empresa do Estado chinês. Agora, está desejosa de ver greves e manifestações. Greves, para a direita portuguesa, são o máximo. Ela adora o encarnado e as greves são um mar encarnado. E mais uma velinha para o santo, coitado, que bem precisa e a direita gosta muito dos pobrezinhos e dos necessitados. E a direita chora convulsivamente pela perda de câmaras dos comunistas. Os dedos da direita não se cansam de deslizar nas contas do rosário. E que pena há no coração da direita. Coitadinhos dos comunistas. A direita chora mesmo mais que os próprios comunistas. E lá vem mais uma vela para S. Jerónimo e um rosário pelo Comité Central. O pior, para a direita, é se o santo for surdo.