terça-feira, 17 de outubro de 2017

Um jogo

O espectáculo, embora triste, não deixa de ser interessante. Entrámos em plena intifada. As partes, armadas de pedras, ululam e arremessam-nas sobre o lado contrário. Uns estão mais defensivos, nos outros subiu a adrenalina. Uns indignam-se pelo que não foi feito no passado; os outros, pelo que não foi feito no presente. Os que se indignam pelo passado são cegos para o presente. Os que se indignam pelo presente são cegos para o passado. O espírito exaltado que pastoreou a primeira República está, mais uma vez, à solta. Uns pensam: agora é que damos cabo deles, carregue-se fundo; os outros cogitam: há que aguentar o embate até que a maré vire. Nada disto tem a ver com as mortes, nem com a floresta, nem com o país. É um velho ódio que começou bem antes da primeira República. Talvez tenha começado com D. Miguel e D. Pedro, ou, o mais certo, ainda antes, com o Pombal e os Távoras. É um jogo. Disputa-se, pedras na mão, quem fica no lugar do Marquês e aqueles que se hão-de queixar de um azar dos Távoras. Não há assassinatos porque passou de moda. O resto? Pouco interessa, até porque as partes são o espelho uma da outra.

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