domingo, 29 de outubro de 2017

A revolução catalã

No último lustro do anos noventa do século passado, assisti, no ISCTE, num seminário da responsabilidade de Maria Carrilho, a um conjunto de conferências. Uma delas foi dada por um catalão, professor em Harvard, cujo nome acabei por esquecer. Recordo-me, porém, de ele ter dito que o problema da independência da Catalunha, com a adesão à CEE, deixara de se colocar. Não fazia sentido, agora que o Estado-Nação estava a perder força para as estruturas supranacionais e para as regionais, trazer para a agenda a questão independentista. A sociedade catalã sentia-se bem com as perspectivas que se lhe abriam, de uma autonomia cada vez mais alargada, com uma relação cada vez mais chegada a Bruxelas do que a Madrid.

Duvidei e acabei por perguntar pela situação na educação. Foi-me dito, tanto quanto me lembro, que aí o sentimento era diferente. Língua catalã, história da Catalunha, cultura catalã e um apagamento progressivo da língua, história e cultura espanholas. Isto reforçou a minha dúvida. É nos aspectos simbólicos que reside a força de qualquer independentismo. Por vezes, as questões económicas disfarçam-no, mas mal há uma crise – e ainda por cima se essa crise é reforçada pela inabilidade política e os tiques nacionalistas de Madrid e pelo aventureirismo da elite política nacionalista catalã – as coisas têm todas as possibilidades de dar para o torto, como estamos a assistir, nesta revolta do nacionalismo catalão.

Uma revolta, aliás, que traz uma novidade como salientava ontem Jorge Almeida Fernandes, no Público, ao citar o historiador francês Benoît Pellistrand, que se questionava se não estávamos perante a primeira revolução contra uma democracia liberal. Este aspecto tem sido muito pouco salientado, mas na verdade aquilo a que assistimos é ao confronto de uma paixão nacionalista com a ordem demo-liberal existente em Espanha. E o grande perigo de toda esta história é que a paixão nacionalista catalã acabe por acordar a sombria paixão nacionalista espanhola. Portugal nada tem a ganhar com o assunto e muito menos com o confronto dos nacionalismos do vizinho do lado. E isto não só por causa da economia, mas também da política. As ondas de choque deste tipo de confrontos costumam não respeitar os marcos que traçam as fronteiras.

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