quinta-feira, 12 de julho de 2018

Crianças grandes


As escolas foram obsequiadas por mais uma daquelas ideias que não apenas há-de salvar a educação da pátria como a alma dos homens e o destino do mundo. Chama-se flexibilidade curricular. Como comentário à genialidade da ideia cito Peter Sloterdijk, no começo do seu livro "Dans le même bateau": «A frase bem conhecida de Bismarck que diz que a política é a arte do possível contêm um aviso contra as crianças grandes que gostariam de se apossar do Estado. Para este homem de Estado, todos os adultos que não são capazes de aprender a diferença entre o que é politicamente possível fazer e o que é impossível permanecem num estado de infantilidade.» Ora o problema em Portugal é que as crianças grandes há muito se apossaram do Estado. Então na educação elas são legião.

terça-feira, 13 de março de 2018

Tiro ao boneco

Os portugueses têm um problema com as habilitações académicas e as doutorolices. O problema, porém, não está apenas do lado daqueles que acham por bem adoptar um currículo hiperbólico, talvez Freud explique o seu desejo inflacionário. Está também no entusiasmo esfuziante com que estes casos são tratados na esfera pública pela brigada da pureza académica. Em vez de estarmos a discutir, como se disso dependesse o destino não apenas da terra mas de todo o universo, se Barreiras Duarte foi visiting scholar em Berkeley ou não, seria mais recomendável que se estivesse a discutir as ideias de Rui Rio para o país, a não ser que Rio não tenha nenhuma e mais valha passar o tempo a fazer tiro ao boneco.

domingo, 11 de março de 2018

O congresso do CDS


Dei uma vista de olhos por uma série de fotos do congresso do CDS. Entre aquilo que se vê e as pretensões enunciadas por Assunção Cristas - ser a candidata da direita a primeiro-ministro - vai uma distância que parece infinita. Olha-se para a gente que frequenta o clube e percebe-se que o país é outra coisa. Não é que aquelas pessoas não façam parte do país. Fazem, mas o país já não as teme nem lhes tem reverência, nem tão pouco deseja ser como elas. E esse é o problema do CDS. Está enclausurado numa casta e o congresso parece uma reunião de boas famílias (honni soit qui mal y pense).

sábado, 10 de março de 2018

Do nosso lado

Sempre que alguém diz "A História está do nosso lado" não sei se hei-de chorar ou rir. Em primeiro lugar, a História é uma grande meretriz que dorme sempre com quem paga mais, isto é, com quem ganha. Assim, quem quiser casar com ela, e não lhe faltam pretendentes, prepare-se para ser enganado na primeira ocasião. Portanto, motivo para riso. Em segundo lugar, contudo, quando alguém diz que a História está do nosso lado, e não falta gente que diga que anda de braço dado com a rameira, não está a pensar em coisa boa. O senhor Bannon foi ao congresso da senhora Le Pen dizer isso mesmo (ver aqui), invocar o santo nome da galdéria História, o que me parece motivo de preocupação. Pessoas de bem não querem nada com a História. Suportam-na, mas não falam no nome dela. História é sangue, coerção, um cortejo de morte e violência. Querem ver a cara da História? Olhem para a Síria.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Congressar


Muito gostam os partidos de congressar. A direita congressa mais do que a esquerda. E na esquerda nem toda a gente congressa. O BE convenciona. Talvez ainda não tenha idade para congressar, mas não vai nada mal. Já convencionou 10 vezes. Modesto, modesto a congressar é o PCP. Depois do 25 de Abril de 1974 apenas congressou 11 vezes, mas um congresso do PCP aproxima-se já de um conclave de cardeais e estamos em plena esfera do sagrado. O PS, talvez por estar mais próximo da direita, já se reuniu em congresso 21 vezes. Lá terá as suas razões, que eu, felizmente, desconheço. Ao CDS nem a sua exiguidade eleitoral o inibe de congressar a torto e a direito. O desejo de se juntarem já os levou 25 vezes a congressar, embora duvide que saibam para quê. Quem não tem mais nada para fazer é o PSD. Em 44 anos de democracia, já congressou 37 vezes. Aquilo pela S. Caetano à Lapa é assim: muda o tempo, faz-se um congresso; o Francisco partiu uma perna, congresso com eles; a Maria engravidou, toca a congressar para decidir quem é o pai. Somos uma pátria de congressistas.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Legisladores e liberdade


Este artigo explica, e explica muito bem, por que motivo a nossa democracia tem laivos sul-americanos. Num país onde os legisladores, depois de eleitos pelo soberano, não são livres, não me parece que a liberdade dos indivíduos seja um bem a que as elites políticas paroquiais dêem especial atenção.

Massacres


"Nenhuma criança, professor ou seja quem for deveria sentir-se inseguro numa escola americana", diz o presidente americano. Quando as circunstâncias exigem uma política que ponha cobro a esta situação (massacres nas escolas), uma espécie de pandemia, Donald Trump exprime desejos. Dito de outra maneira, quando a realidade desmente a ideologia, exprime-se o desejo de que a realidade não seja o que é.