quinta-feira, 2 de julho de 2020

Esconder um problema

"Começa-se por classificar discurso, monitorizar discurso e acaba-se com Ministérios da Verdade." (ver aqui) Isto é um exemplo de uma falácia que se ensina a adolescentes nas escolas secundárias. Haverá quem encolha os ombros, haverá quem julgue que foi um infeliz erro de pensamento, mas que corrigido reporá a bondade da prosa da Iniciativa Liberal. Haverá outras formas de interpretar o uso da falácia. Uma delas, caída em desuso nos dias de hoje, a da escola da suspeita, perguntaria: o que está a ocultar aquela falácia? O que quer esconder a IL ao usá-la? Uma hipótese será o próprio problema. A forma como os promotores do ódio e da intolerância, aproveitando a liberdade de expressão e potenciados pelas redes sociais, estão a socavar as instituições democráticas. Esconde ainda outra coisa. A debilidade da sociedade civil - se não a complacência de parte dela - para lidar com a disseminação do discurso do ódio. A solução do governo é má? Possivelmente, mas aquilo que a IL propõe para lidar com a questão é nada ("Liberalismo é liberdade de expressão e responsabilidade individual."). Há um problema muito complicado que se liga à própria natureza da linguagem, à sua profunda ambiguidade e aos seus efeitos perlucotórios. Pode-se fomentar um clima de ódio e de absoluta intolerância sem que se usem expressões que sejam abertamente criminosas. A solução governamental desagrada-me, além de ser ingénua (será interessante ler os comentários ao post da IL), mas a diatribe da IL serve apenas para ocultar um problema muito complexo, cujas variáveis são a liberdade de expressão, a saúde das instituições democráticos, a possibilidade da tolerância, a realidade das redes sociais e a natureza complexa da linguagem.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Irresponsabilidade total

Há qualquer coisa no ar que cheira mal, muito mal. Estamos perante uma pandemia e não sabemos como sair dela, nem se ela, amanhã, não pode recrudescer e tornar-se muito mais virulenta para os velhos mas também para os novos, mas parte dos portuguesas anda inflamada com exercícios étnicos. Dezenas de milhares de trabalhadores já perderam os seus empregos, outros irão perdê-los nos próximos tempos, mas parte dos portugueses encanta-se com atoardas inconstitucionais inaceitáveis e contrárias aos direitos humanos. Muitas empresas estão a falir, os negócios estão suspensos, a iniciativa privada está suspensa, mas importante mesmo é arranjar campos de concentração para uma parte dos portugueses. Precisamos de reinventar a nossa forma de viver, de criar riqueza, de fomentar o emprego, de trabalhar, de estudar e de investigar, mas importante mesmo são as declarações de um deputado que vive dos incêndios e dos sentimentos de medo e de ressentimento. Toda a nossa vida cultural, desportiva e associativa está suspensa, tem a vida por um fio, mas importante é encontrar um bode expiatório. Isso anima a claque. Se os portugueses querem ceder a este tipo de coisas e de gente, ponham os olhos no Brasil. Se for pouco, vão estudar a história da Europa na primeira metade do século XX. Só espero que a nossa tradicional sensatez e humanidade fale mais alto, para que um dia os nossos descendentes não tenham vergonha de nós.

sábado, 11 de abril de 2020

Regionalização

O embaixador Seixas da Costa, tendo em conta o que tem visto por aí nos últimos tempos, perdeu a simpatia pelas regiões (ver aqui). A regionalização é uma daquelas ideias muito estimáveis em teoria e da qual, na prática, devemos fugir a sete pés. Se alguém quiser dar cabo da democracia, então regionalize o país. Só espero que os dois maiores partidos, o PS e o PSD, tenham a sensatez suficiente para não se deixarem levar pelos respectivos aparelhos. Em 1998, fiz parte dos mais de 60% que votaram não à regionalização. Não vejo qualquer razão, antes pelo contrário, para mudar de opinião.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A loucura na Nicarágua

Se alguém pensava que a idiotice sobre o coronavírus era o monopólio de certo tipo de direita, então desengane-se. À esquerda também há quem desdenhe da racionalidade e não hesite em colocar em perigo as populações. O sandinismo da Nicarágua está ao nível de Bolsonaro e das seitas neopentecostais que o apoiam, mas como não existem os contrapoderes que ainda subsistem no Brasil, a situação pode tornar-se explosiva (ver aqui). Não há ideia mais estapafúrdia - ou criminosa - do que considerar o covid-19 como o ébola dos ricos. Assim como aconteceu em Itália e no Brasil, tanto quanto me apercebi, também na Nicarágua a Igreja Católica tem sido de uma prudência exemplar, fechando as Igrejas e tentando mesmo contribuir para minimizar os efeitos possíveis da pandemia, o que tem sido contrariado pelas autoridades. O mais dramático é que nada disto fará com que os adeptos tanto de Bolsonaro como os dos sandinismos vários da América Latina se tornem mais razoáveis.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Monstros

Mesmo depois da terrível experiência que a Itália está a ter, a extrema-direita acha que o caos se deve instalar (aqui). Vale aos italianos a ponderação e a razoabilidade da Igreja Católica. Há qualquer coisa que ultrapassa a razão, há qualquer coisa de monstruoso nesta gente.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Estado de emergência

Não tenho conhecimento sobre a evolução de epidemias e sobre o combate que se lhe deve dar. Não sei se o estado de emergência é o mais eficaz ou não. Neste caso tenha de confiar nos eleitos - pelo menos até prova em contrário - e acreditar que estão a agir de boa-fé e a utilizar o melhor conhecimento disponível (eu sei que todos nós somos muito mais inteligentes que os políticos, pelo menos enquanto não formos chamados a assumir responsabilidades). Quero ainda dizer uma outra coisa. Não acompanho aqueles que vêem na declaração do estado de emergência pelo PR um acto para criar um estado concentracionário. Não o é. É um acto democrático que visa defender as pessoas e não o abrir a porta para uma distopia orwelliana. As democracias, se funcionam, estão assentes em mãos de ferro revestidas de luvas de algodão e não devem hesitar em tirar as luvas se isso for imperioso. Por outro lado, a nossa democracia, apesar de jovem, está assente em nove séculos de história. Somos uma comunidade e sabemos bem de onde viemos e quem somos e, pelo que tenho visto, queremos continuar a ser uma comunidade, apesar de estarmos sempre dispostos a dizer mal de nós mesmos. Como referiu o PR já vimos muita coisa, já passámos por muita coisa e iremos descobrir o caminho para ultrapassar mais esta. Eu não votei no actual PR, mas ele é o meu Presidente e confio no seu discernimento político.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Do liberalismo em Portugal

Quando vejo loas ao liberalismo, tenho sempre uma grande vontade de rir. Não pelo liberalismo em si, mas pelo seu casamento com os portugueses. Neste artigo, JPP torna patente a realidade portuguesa. Está a falar do actual regime? Sim e não. Sim, porque as coisas funcionam assim. Não, porque já antes funcionavam exactamente no mesmo modo. No Estado Novo, na primeira República, na Monarquia liberal e, por certo, na Monarquia absoluta. Aquilo que se vitupera nos políticos do regime é o mesmo que se faz na vida privada, onde se pratica sem qualquer problema de consciência a pequena e a grande cunha, o favorzinho, a mão que lava outra mão, o dar uma palavrinha, o vê lá se conheces alguém, o olha preciso de um emprego para a pequena, etc., etc. O problema de Portugal não é o da ideologia de quem está no governo, mas o nosso profundo amor à família e aos amigos. Estes são muito mais reais do que as regras e os princípios abstractos que nos deveriam, de forma neutra e universal, guiar. Entre as abstracções e os interesses concretos, a maior parte dos portugueses não hesita e vocifera não me venham com coisas abstractas. Se o princípio abstracto mostra alguma resistência, logo se encontra modo de o contornar. Achar que se vai mudar é de uma inocência que se compreende nos verdes anos, mas que não passa de uma ilusão. Antes das pessoas pertencerem a partidos políticos, elas são portuguesas, beberam a cultura nacional e estão intimamente conectadas ao tecido social português com as suas regras ocultas e as suas leis de facto (embora não de direito).