quarta-feira, 10 de julho de 2024

O PS e as presidenciais

Segundo uma notícia de hoje, Mário Centeno e António Vitorino são as figuras políticas com maior probabilidade de serem apoiadas, nas próximas eleições presidenciais, pelo Partido Socialista. São, por certo, pessoas estimáveis, mas estão longe de serem personalidades ganhadoras. É verdade que os candidatos naturais e ganhadores do PS estão ocupados com os seus compromissos internacionais. Tanto António Costa como António Guterres teriam sérias possibilidades de virem a ser eleitos. A sua indisponibilidade terá por consequência a entrega da Presidência da República à direita, o mais certo por dez anos. Ora, como se tem visto, não é inócuo ter um Presidente da República de direita ou de esquerda. O PR não é um árbitro do sistema político. Pela nossa constituição, é um jogador e um jogador, em certas circunstâncias, com muita influência no jogo. Talvez a esquerda fizesse bem em pensar seriamente a questão das presidenciais.

terça-feira, 9 de julho de 2024

A moderação dos moderados

Pedro Norton, no Público de hoje, tem um artigo com o interessante título Mais Keir Starmer, menos Mélenchon. O artigo comenta favoravelmente a recusa da direcção do Partido Socialista em participar numa edição à portuguesa de uma Frente Popular, como aquela que houve em França nas últimas eleições. Há contudo um problema neste tipo de reflexões a favor de opções políticas moderadas, opções virtuosas, mas que omitem alguns pormenores.

A questão que se deve colocar é a seguinte: Que razões levaram o eleitorado a desertar do centro político? A resposta não parece difícil. O centro político - tanto à direita como à esquerda - não teve em conta os anseios, preocupações e medos do eleitorado, e este entregou os votos aos radicais. Há políticas que seria necessário, como aconteceu outrora, que o centro as realizasse, mas há muito que o centro está hipotecado a uma visão do mundo que em vez de reforçar, em número e qualidade,  as classes médias, as destrói.

Estas eram a grande base de apoio dos partidos do centro. Como estes adoptaram políticas que atingiram os interesses do seu eleitorado, é plausível que este procure abrigo no alforge dos radicais. Sim, precisamos de políticos moderados, mas para fazer aquilo que se têm recusado a fazer e evitar que as pessoas, em desespero de causa, procurem soluções radicalizadas. Isto é, evitar a aplicação de opções de um liberalismo económico radical. Os moderados devem voltar a ser moderados.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

França, sensatez precisa-se

A estratégia política desenhada, há muito, por Macron teve agora o seu epílogo. Apostou em destruir a esquerda e a direita democráticas, substituir o centro tradicional por um centro de matiz liberal. As eleições de ontem mostraram o resultado. O centro esquerda está coligado, mas em minoria, com forças  de esquerda mais radicais, algumas a roçar o populismo. A extrema-direita, apesar da derrota, cresceu e é uma força política consolidada. Os liberais de Macron resistiram, mas não têm condições para formar governo, pois também foram derrotados. A solução política está longe de ser fácil e a França está à beira da ingovernabilidade, a não ser que, num passe de mágica, as forças do macronismo e as de esquerda encontrem a sensatez e a prudência suficientes para encontrar um caminho que possa evitar a deriva dos franceses para a extrema-direita. Talvez seja esperar demasiado da humanidade. A União Europeia pode respirar de alívio com a vitória da esquerda, mas veremos se a derrota da extrema-direita foi conjuntural ou estrutural.

domingo, 7 de julho de 2024

A doença francesa

Mais logo, saber-se-ão os resultados das eleições francesas. Uma coisa, porém, é certa. A democracia francesa está doente. Segundo uma notícia do Público, França prepara-se para uma noite de desacatos, mal sejam conhecidos os resultados eleitorais. Que umas eleições possam ser motivo de violência não é já um sintoma de uma doença é a própria doença. A invenção da democracia teve por uma das suas finalidades eliminar a violência política das sociedades. Quando a polarização política se exacerba até à ruptura entre as partes - ou entre os hooligans das partes, o que é a mesma coisa - é porque a doença está muito avançada.

sábado, 6 de julho de 2024

Forçar os limites constitucionais

A política de André Ventura de instrumentalização do descontentamento das forças de segurança e a relação equívoca existente entre membros das forças policiais e o seu partido são apenas um sinal, mais um, de que o Chega não hesita em tentar forçar os limites constitucionais. A existência do Chega não é explicável pela necessidade de melhorar o regime democrático. O que a explica é a tentativa de o destruir por dentro, exacerbando os conflitos e explorando todas as oportunidades para desgastar as instituições que asseguram, pela primeira vez de um modo pleno na nossa história, as liberdades dos portugueses. 

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A eleição de Nigel Farage

As eleições no Reino Unido trouxeram uma retumbante vitória dos trabalhistas e uma humilhação eleitoral dos conservadores. Há um aspecto, porém, que está a ser pouco realçado. Trata-se da eleição de Nigel Farage, o líder do Partido Reformista. Nunca Farage tinha conseguido ser eleito para o parlamento britânico. Além disso, é possível que os reformistas tenham um conjunto de deputados, ainda que pequeno tendo em conta a dimensão do parlamento britânico, com algum significado. 

Isto, perante a dimensão da vitória do Labour, parece uma irrelevância. Ora, quem é Farage? É um demagogo muito competente, que fez do seu lugar de eurodeputado o púlpito de onde pregou, com não pouca eficácia, o Brexit. Ele é um dos responsáveis pela situação que o Reino Unido vive, mas é provável que sejam apenas os conservadores a arcar com a punição pelo descalabro que significou a saída do Reino Unido da União Europeia. 

Farage tem agora uma nova tribuna para espalhar a sua demagogia e está confiante de que em breve o suporte popular aos trabalhistas cairá, pois a situação social, económica e política do Reino Unido é bastante complexa e não se vai alterar de um dia para o outro porque o país mudou de maioria, de governo e de primeiro-ministro. O perigo para os trabalhista não virá apenas da oposição conservadora, mas do populismo de Farage e do seu partido.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

EUA, os melhores e os piores anjos

Hoje, no X (ex-Twitter), Barack Obama escreveu que o 4 de Julho tem por objectivo celebrar a grande experiência que é a democracia americana. Ela nunca está garantida pois é sempre uma experiência, o que implica que se lute por ela, para que reflicta os melhores anjos da natureza humana e não os piores. A referência aos melhores anjos é uma citação do discurso de tomada de posse de Abraham Lincoln, em 1861. 

Estava-se num tempo terrível nos EUA, em Abril eclodiria aquilo que ficou conhecido pela Guerra de Secessão, que durou até 1865. Os melhores anjos acabaram por triunfar, mas os piores tiveram força suficiente para desencadear a guerra. O texto de Obama é um aviso e lembra que, mais uma vez, os piores anjos da nossa natureza podem trazer a desordem, a violência e a dor.