Tudo indica que a extrema-direita francesa ganhe as eleições de hoje. As projecções à boca das urnas apontam para 34%. O que impressiona em todo este processo é que a ameaça não é de agora. Há muito que se assiste ao paulatino crescimento destas forças, sem que isso tenho levado, no campo democrático, a uma reflexão profunda sobre as causas. Os programas dessas forças foram-se mantendo fiéis aos hábitos ideológicos dos diversos partidos, enquanto o eleitorado se foi afastando do campo democrático e se foi fidelizando ao discurso radical. Cada vez é menos provável que a França e, por certo, a Europa consigam resistir a esta avalanche do radicalismo de direita. Parece que já é tarde.
domingo, 30 de junho de 2024
sábado, 29 de junho de 2024
União das esquerdas
Está na moda, depois de vários desaires eleitorais, a ideia de uma união das esquerdas, ideia essa que recebeu mais combustível com a constituição em França da Nova Frente Popular. Será possível? A ideia é plausível, por exemplo, na disputa das câmaras municipais de Lisboa e do Porto. Eventualmente, a de mais uma ou duas grandes, para a nossa dimensão, capitais de distrito.
Uma frente popular à portuguesa não parece possível, pois há uma diferença significativa entre os socialistas e os partidos à sua esquerda, com a excepção do Livre. As pessoas não se lembram ou não sabem, mas mesmo nas últimas duas eleições - se aquilo eram eleições - no regime anterior, em 1969 e em 1973, não existiu essa convergência das oposições. A oposição apresentou-se dividida entre a CEUD, de influência socialista, e a CDE, onde a influência maior era a do Partido Comunista.
Poderão existir novas geringonças, inclusive com governos pluripartidários, mas isso representará sempre um acordo em que nenhuma linha essencial dos compromissos portugueses com a NATO e o projecto europeu será posta em causa. Tal como aconteceu em 2015. Claro que o fim da NATO e a implosão da União Europeia alterará os dados do problema, entrando-se numa era de turbulência que trará novas formas de lidar com a realidade, mas não é isso que neste momento está em causa.
sexta-feira, 28 de junho de 2024
O amor-próprio de Biden
Pode a cegueira de um homem arrastar não apenas um país, mas um modo de vida - isto é, uma forma civilizacional - para a ruína? Talvez possa. A cegueira de Joe Biden pode arrastar os EUA para uma grave crise democrática e, no balanço, levar também a Europa ocidental consigo. É verdade que as crises não se podem personalizar e não são o efeito de uma pessoa, mas o problema é diferente.
Biden devia ter tido a humildade de reconhecer que a defesa da democracia nos EUA e no mundo necessitava de alguém mais jovem, mais pujante e mais capaz de lidar com a crise que enfrentamos. O problema de Biden não é ele ser o desencadeador da crise, mas de ser impotente para a enfrentar.
Retirar-se no fim do mandato por não se recandidatar, seria uma saída gloriosa. Retirar-se, como tudo aponta, por derrota às mãos de Trump é uma humilhação inútil e um acto de egoísmo que nem mesmo a um político se poderá perdoar. Um amor-próprio, o de Biden, não apenas inútil, como perigoso.
quinta-feira, 27 de junho de 2024
Senis e não seniores
Há um sintoma que parece confirmar que os EUA são uma potência em decadência. Não se trata da economia, nem das questões militares ou de relações internacionais. Uma grande potência que tem como únicos candidatos elegíveis para a sua Presidência Joe Biden e Donald Trump só pode estar muito doente. Uma coisa é ter candidatos seniores outra é apresentar candidatos a roçar a senilidade. Uma sociedade que se revê nessas candidaturas deixou de pensar no futuro.
quarta-feira, 26 de junho de 2024
Maus ventos de França
Os ventos vindos de França e que, saltando pelos Pirenéus, chegam até cá estão longe de ser os melhores. O centro político implodiu e o confronto eleitoral parece ser entre a extrema-direita do Rassemblement National de Marine Le Pen e a coligação que toma o nome de Nouveau Front Populaire, onde se coligam o centro esquerda, a esquerda e algum populismo de esquerda, cuja figura central é Jean-Luc Mélenchon e o seu partido La France Insoumise. O que se precisava neste hora era tudo menos um retorno ao ambiente político da primeira metade do século XX. O centro-direita, exterior ao partido de Macron, está completamente dividido, com gente a apoiar a extrema-direita, outros, como o ex-primeiro ministro Dominique Villepin, a abrir a porta para um apoio à Nouveau Front Populaire e outros sem saber o que fazer. O futuro da União Europeia começa a jogar-se em França no próximo domingo e os ventos não correm de feição.
terça-feira, 25 de junho de 2024
Para o que der e vier
Parece estar assegurada a escolha de António Costa para Presidente do Conselho Europeu (Público). Resta esperar pelas cenas dos próximos capítulos, como, por exemplo, o vazamento de mais escutas na comunicação social. O que está, há muito, em jogo é pura política, e em política vale tudo. Imaginemos que António Costa se lembra de apresentar a sua candidatura à Presidência da República. Não é plausível que o faça, ainda mais agora, mas, por certo, até lá o processo influencer estará aberto, para o que der e vier.
segunda-feira, 24 de junho de 2024
Psicopatas na política
João Carlos Melo, psiquiatra, é autor do livro Lugares escondidos da mente - do mais sombrio ao mais luminoso da mente humana. Fala de psicopatas (aqui). Descreve-os como pessoas malévolas, que não sentem culpa nem compaixão. Vivem entre nós, usando uma máscara, e algumas estão em lugares de poder. Diria que o poder - qualquer tipo de poder, mas, mais acentuadamente, o poder político - tem uma enorme capacidade de atracção deste tipo de personalidades. Basta olhar para a história, para os regimes políticos autoritários e totalitários e, de imediato, se descortina a presença de personalidades psicopatas.
A democracia liberal não é apenas uma forma de determinar quem governa sem passar pelo confronto violento. Representa também a possibilidade da avaliação moral dos candidatos ser um dado importante na escolha dos eleitores. No entanto, é apenas uma possibilidade e não uma condição necessária. Quanto maior é a polarização política, mais os eleitores se sentem atraídos por personagens políticas claramente psicopatas, as quais tudo fazem para intensificar essa polarização. Há uma sedução pelo mal que eles representam e que muitos eleitores esperam que façam cair sobre os do outro lado.
Em política, o problema não reside apenas na existência de políticos de personalidade psicopata. Ele está, de forma mais acentuada, na atracção dos eleitores por essas personagens, destituídas de culpa e incapazes de compaixão. A partir de certa altura há uma fusão entre o político de personalidade psicopata e os eleitores que vão perdendo, movidos pela paixão política, a capacidade de se pôr no lugar do outro, de sentir culpa pelas suas opções ou de ter qualquer compaixão por quem pensa de modo diferente. E isto está a acontecer em muitas democracias, e Portugal não é uma excepção.