Como se esperava, o resultado das eleições na Venezuela é obscuro, com as duas partes a reclamarem vitória, tendo o Conselho Nacional Eleitoral atribuído a vitória a Nicolás Maduro. Contudo, esta atribuição tem credibilidade nula, pois a norma, num regime autoritário, é de que quem está no poder ganha. E se lhe faltarem votos para isso, eles logo aparecerão. A Venezuela não iria ser uma novidade. Tudo como dantes.
segunda-feira, 29 de julho de 2024
domingo, 28 de julho de 2024
Trump diz ao que vem
Se os norte-americanos elegerem Trump e este acabar com a democracia, ninguém pode dizer que o candidato não deu sinais suficientes daquilo que pretendia fazer. Ora, o apoio que tem não mostra apenas o apoio a um candidato à Presidência, mostra que parte substancial do eleitorado dispensa a democracia, o trabalho de ir votar e de ser governada pela lei. A democracia parece ter cansado as pessoas e, pior, traz sempre a hipótese de o governante eleito pensar de um modo diferente. Para essa parte do eleitorado americano um despotismo fundado na arbitrariedade de um chefe é mais atraente do que o jogo regulado pela lei e com um módico de racionalidade. Trump, esse não esconde o que quer e ao que vem.
sexta-feira, 26 de julho de 2024
Outro tipo de populismo em França
Continuemos com o populismo de esquerda. Vale a pena ler o artigo O problema Mélenchon, de Jorge Almeida Fernandes, no Público. Os resultados eleitorais em França redundaram numa grande confusão. Nenhuma força política tem uma maioria que a sustente no governo. A vitória da Nova Frente Popular é muito curta para ter qualquer veleidade para aplicar, por inteiro, o seu programa. Ora, Jean-Luc Mélenchon reivindica, desde o início, a aplicação total do seu programa. Na verdade, ele é um populista, cujo adversário principal está longe de ser a senhora Le Pen. Aquilo a que Mélenchon e a sua França Insubmissa se opõe com unhas e dentes é ao Presidente Macron e aos liberais.
O mais sensato seria a coligação vencedora negociar um programa de governação com as forças apoiantes de Macron, um programa que resolvesse alguns problemas que suportam o apoio popular à extrema-direita, um programa em que liberais e socialistas, de vários matizes, cederiam, sem que nenhuma das partes tivesse de perder a face. Em nome da República, do Estado de direito e da democracia liberal. O grande obstáculo parece ser Mélenchon e o conflito que uma certa esquerda tem com o adjectivo liberal da democracia. Veremos se a vitória das esquerdas unidas não irá redundar numa pesada derrota.
quinta-feira, 25 de julho de 2024
A Venezuela e o populismo
O caso da Venezuela é um exemplo paradigmático do populismo de esquerda. Começou com Chávez e continuou com Maduro, que, perante a iminência de perder as eleições, mesmo quando controla o poder, ameaça com um banho de sangue. É importante perceber que o problema não começou com Maduro, mas com Chávez, o qual foi aproveitando o apoio popular para ir destruindo a democracia e o Estado de direito. A democracia não se resume ao voto, mas implica o Estado de direito, a separação de poderes, a independência das forças armadas e de segurança relativamente aos partidos políticos, bem como uma imprensa livre e o respeito pelas oposições. O exemplo da Venezuela serve para alertar que a ameaça populista não vem apenas da direita, embora os populismo de direita estejam particularmente activos. Também pode vir da esquerda. Seria bom que Maduro perdesse as eleições, saísse sem atropelos e que ao populismo bolivariano não sucedesse um de sinal contrário.
quarta-feira, 24 de julho de 2024
Os jogos olímpicos e o ideal liberal
Estamos a dias da abertura oficial dos Jogos Olímpicos, mas algumas competições já começaram, como o futebol ou o râguebi de sete. Há uma mitologia em torno do ideal olímpico e dos esforços do Barão de Coubertin. Contudo, e apesar da inspiração nas olímpiadas gregas, os actuais Jogos Olímpico transportam uma visão moderna e de natureza liberal. O seu ideal é o da paz entre as nações, uma espécie de encarnação da paz perpétua kantiana. Os jogos desportivos seriam o outro lado do comércio mundial nessa prossecução de uma paz entre toda a humanidade. Como temos percebido nem o comércio entre as nações nem os jogos desportivos, entre eles os Jogos Olímpicos, têm conseguido assegurar a paz entre os homens. A realidade é mais tenebrosa que os nossos desejos. Seja como for, sempre podemos pensar que as bandeiras olímpicas são o símbolo desse ideal de uma paz perpétua que, numa caminhada infinita, a humanidade acabará por realizar. Representam, mesmo se manipulados por interesses políticos, um princípio de esperança.
terça-feira, 23 de julho de 2024
Salvar a democracia
Kamala Harris talvez não seja a candidata com que muitos democratas sonhariam. Contudo, é a que parece mais bem colocada para disputar a eleição e qualquer hesitação pode sair muito cara, e não apenas ao Partido Democrata. Como Biden disse Temos ainda de salvar esta democracia. O tom apocalíptico não é, infelizmente, deslocado. E não se trata apenas de salvar a democracia americana, mas, muito plausivelmente, a democracia um pouco por todo o mundo, tais são as ameaças que sobre elas impendem e que uma vitória de Trump seria uma luz verde para muitos candidatos a déspotas avançarem.
segunda-feira, 22 de julho de 2024
Trump e os deuses
Donald Trump, ao saber da desistência de Joe Biden, afirmou que Kamala Harris será mais fácil de derrotar (aqui). É aqui que se abre um pequena janela de esperança para as democracias. Até agora protegido pelos deuses, talvez a húbris, cuja manifestação nunca descura, irrite esses mesmos deuses, e estes decidam punir a sua desmedida. Há em Trump, na sua entourage e no trumpista comum a profunda convicção de que a eleição está ganha. Veremos se os deuses estarão pelos ajustes e continuarão a proteger o narcisismo de quem está apostado em tornar o mundo numa grande confusão.