A composição do parlamento espanhol saído das eleições de hoje é uma óptima ilustração para aulas de Ciência Política. Um dos problemas de um sistema eleitoral proporcional é o da dificuldade que pode haver para formar governo. Portugal não tem sido atingido por isso. A Espanha também não tinha até há pouco. Nenhum sistema eleitoral é perfeito. Mesmo um sistema eleitoral maioritário (eleição uninominal a uma volta) como o inglês que parece assegurar governos sólidos não consegue resolver o problema do Brexit. Voltando a Espanha, é imaginável que comecem a existir pressões para substituir o sistema plurinominal proporcional (idêntico, de alguma forma, ao português) por um outro que assegure a governabilidade. Com a subida do Vox e a situação actual, a democracia espanhola está a passar um mau bocado.
domingo, 10 de novembro de 2019
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Uma regra sem sentido
Todos sabemos que as regras são para cumprir. Também sabemos que há regras estúpidas que devem ser abolidas, ainda por cima quando já houve para elas excepção. Não consigo entender o que vai na cabeça do PS, BE, PCP e PEV para bloquear a possibilidade dos novos partidos com apenas um deputado (Chega, IL e Livre) poderem participar no debate quinzenal com o primeiro-ministro. A posição é má por dois motivos. É intrinsecamente má porque a representação dos portugueses é mais importante do que um regimento burocrático da Assembleia. É instrumentalmente má porque faz destes partidos vítimas, ainda por cima vítimas de um regimento que já abriu excepções. Uma democracia representativa serve também para que as ideias de que não gostamos tenham voz, desde que os eleitores lhe tenham dado legitimidade. Esperemos que um novo regimento resolva este assunto.
domingo, 3 de novembro de 2019
Joacine Katar-Moreira e a incorrecção política
Joacine Katar-Moreira, que eu não fazia a mínima ideia quem
era, e o seu assessor, de quem também nunca tinha ouvido falar, têm pelo menos
um mérito. Transformaram muitos dos zelosos militantes do grande exército de
combatentes ao politicamente correcto em defensores da mais rígida correcção
política. Quando a incorrecção política vem de um certo lado, essa gente
baba-se com as tartufices dos politicamente incorrectos. Quando a incorrecção
política - isto é, a patetice ou tartufice - vem do outro lado, os incorrectos
passam a correctos, vão para as ruas rasgar as vestes, arrepanhar os cabelos e
clamar que a pátria e a civilização estão em perigo. Seja como for, e apesar de
me divertir a conversão de politicamente incorrectos à correcção, julgo que o
Livre já perdeu a oportunidade que os eleitores lhe deram. Talvez em Lisboa
haja eleitorado para o discurso de Joacine Katar-Moreira, mas não haverá para
eleger mais do que um deputado. Fora de Lisboa, nem pensar.
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
O problema da falta de acordos à esquerda
Há uma coisa que António Costa e o PS talvez não tenham percebido. O problema de não haver acordos à esquerda não é tanto daquilo que se vai passar no parlamento. O problema é que vai ter além de toda a direita em permanente guerrilha contra o governo, agora com um Rui Rio em força no parlamento, também os eleitores de esquerda, cerca de 18%, se se incluir o Livre. Isso não fará cair o governo, mas pode ser que o vá cozinhando em lume brando. Por exemplo, a arrogância habitual do PS não vai encontrar agora quem a desculpe e olhe para o lado, como aconteceu no governo anterior. À direita e à esquerda cairão sobre ela. Uma coisa é o número de deputados e outra a voz da rua. Esta não demite governos, mas desgasta-os, até que os eleitores lhes fogem.
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Fim da Geringonça
António Costa e o PS tinham, quando fizeram um conjunto de reuniões com a esquerda e o PAN, a intenção de continuar a experiência da anterior legislatura? Não, não tinham qualquer intenção. As reuniões foram apenas uma encenação, à qual a rejeição de acordo escrito pelo PCP ajudou, para tentar mostrar ao eleitorado que AC e o PS não são pobres e mal agradecidos. Por que se comportam assim? Porque têm uma maioria absoluta sem a terem. Que hipótese têm o BE e o PCP de votar ao lado da direita uma moção de censura ou a rejeição de um orçamento sem que isso lhes leve parte do eleitorado? Tendencialmente, nenhuma. Na anterior legislatura, o PS e AC precisavam dos votos do BE e do PCP. Nesta, apenas precisam do medo.
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domingo, 6 de outubro de 2019
Assunção Cristas
A saída - inevitável - de Assunção Cristas do CDS não me parece que enriqueça a política. Quando ela chegou a liderança, pensei que poderia fazer um percurso interessante, porque acho que ela tem talento político. Enganei-me. Ela cometeu erros (não apenas nas europeias, mas também na acrimónia com A. Costa), não soube, como há pouco sublinhou José Miguel Júdice, criar uma distinção com o PSD, mas julgo que o problema principal não é ela, é o próprio CDS, a imagem que fabricou, os estratos sociais que apresenta como base orgânica. Esses estratos são pouco relevantes socialmente (em número de votos, entenda-se) e os resultados de hoje espelham isso. Tenho dúvidas que o CDS sobreviva caso cheguem ao parlamento a Iniciativa Liberal e o Chega. Veremos.
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Freitas do Amaral
Com a morte de Freitas do Amaral
desaparece o último dos quatro grandes protagonistas partidários do pós-25 de
Abril. Freitas do Amaral teve um papel muito importante na consolidação da
democracia em Portugal. Na direcção do CDS, enquadrou no novo regime, juntamente
com um conjunto notável de correligionários, a parte mais conservadora da
população portuguesa. Para a democracia, o papel de Freitas do
Amaral foi mais decisivo enquanto esteve no centro-direita do que, depois,
quando se aproximou do centro-esquerda. Aproximação legítima, mas já num tempo
em que o regime estava consolidado.
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