A Iniciativa Liberal, no actual momento, vive fundada em dois equívocos. Um conjuntural e outro estrutural. O equívoco conjuntural diz respeito à sua liderança. Desde o primeiro momento e devido à sombra do auto-afastado líder Cotrim Figueiredo, Rui Rocha mostrou ser o homem errado num lugar para o qual não tem, como se tem visto, talento. Um erro de casting. O equívoco estrutural diz respeito ao seu posicionamento político, vincadamente à direita, tão à direita que dissidentes do partido não têm qualquer pudor em enfileirar na extrema-direita. Os partidos liberais europeus são tendencialmente centristas e podem coligar-se com a esquerda, como acontece, neste momento, na Alemanha, onde os liberais estão no governo com os sociais-democratas (irmãos dos socialistas portugueses) e os verdes. Seria inimaginável em Portugal.
domingo, 21 de julho de 2024
sábado, 20 de julho de 2024
O diálogo sobre o orçamento
Aguiar Branco, Presidente da Assembleia da República, elogia o diálogo em torno do próximo orçamento do Estado (aqui). Contudo, é preciso não ter qualquer ilusão. O diálogo existe porque tanto o governo como a oposição não têm qualquer interesse em provocar a queda do executivo e a convocação de novas eleições. Ir-se-á assistir à encenação de múltiplos dramas, tanto de um lado como de outro, para fingir que não se tem medo de eleições, mas ninguém, entre os grandes partidos, as quer. O PSD e o PS porque sabem que poucas alterações haverá na relação de forças entre os dois partidos. O Chega porque começa a desconfiar que numa próxima eleição verá reduzido o seu grupo parlamentar. Portanto, o diálogo existente não é um exercício de virtude, mas o retrato dos temores que habitam a consciência dos principais partidos.
segunda-feira, 15 de julho de 2024
O atentado e a política de acesso livre a armas
Especula-se bastante sobre as consequências eleitorais do atentado contra Donald Trump. Essas consequências são previsíveis, a vitória do candidato republicano, a não ser que exista um milagre. Especula-se menos no atentado como a consequência de uma política, uma política muito específica. Trata-se do fácil e livre acesso às armas. Se os EUA tivessem uma política de restrição do acesso a armas sofisticadas, como acontece nos países europeus, continuaria a ser possível que o atentado tivesse ocorrido, mas a probabilidade dessa ocorrência seria muito menor. Pensar, porém, que aquilo que aconteceu a Trump o leve, em caso de ser eleito, a reconsiderar a permissão do livre acesso a armas, algum ganho haveria. Contudo, isso seria esperar outro milagre.
domingo, 14 de julho de 2024
Tiros contra a democracia
Uma tentativa de homicídio contra Donald Trump era o que o mundo democrático menos precisava. É irrelevante que aquele que fez os disparos contra o candidato republicano estivesse inscrito como republicano, que as razões pertençam ao foro interno dos republicanos. O facto importante é que Trump vai beneficiar, perante o eleitorado, do estatuto de vítima e isso será mais um trunfo na sua corrida presidencial. Em democracia, a violência contra aqueles que a querem pôr em causa nunca funciona a favor dos que defendem a democracia. A democracia liberal fundamenta-se na interdição de qualquer tipo de violência política para resolução de problemas políticos.
sábado, 13 de julho de 2024
Que bom governante se é, na oposição
Quando se está na oposição, governar bem é a coisa mais fácil, e o governo em funções não o faz por manifesta incompetência, a qual, como se sabe, se deve a uma falha ontológica, isto é, à natureza dos governantes. O PSD, na oposição, resolvia, se fosse governo, todos e quaisquer problemas do país. E os portugueses, uma parte, acreditou. O pior é quando se chega ao governo. O problema com as polícias agravou-se e agora são os médicos a mostrar que o melhor lugar para governar com êxito é estar na oposição. Para o lembrarem, seiscentos médicos de família escreveram à ministra (aqui). O PSD não é o único partido que é excelente a governar quando está na oposição, mas talvez seja o que governa radicalmente melhor na oposição. Agora, tem a realidade pela frente, e a realidade nunca é coisa agradável.
sexta-feira, 12 de julho de 2024
Um exemplo vindo de Espanha
O Vox, partido de extrema-direita espanhol, saiu dos governos de várias regiões espanholas, onde se encontrava coligado com o Partido Popular (direita democrática). O motivo é, na verdade, irrelevante e prende-se com o facto dos executivos, por iniciativa do PP, terem acolhido nas respectivas regiões algumas dezenas de menores migrantes não acompanhados, provenientes das Canárias, onde existia um excesso de migrantes para a capacidade de acolhimentos dessa região.
O que mais uma vez se prova é que estes partidos políticos não são parte da solução. A sua agenda radical, a sua incompatibilidade com a democracia liberal e os valores provenientes do humanismo e, mesmo, do cristianismo, torna-os forças oportunistas e com uma única finalidade, enfraquecer continuamente as instituições democráticas. O PP vê chegar ao fim um casamento que celebrou com entusiasmo, ao contrário do cônjuge que agora decretou o divórcio.
quinta-feira, 11 de julho de 2024
Defesa, sair da irresponsabilidade
Portugal vai aumentar o seu investimento na Defesa (Público). Durante décadas, a Europa ocidental leu a realidade geopolítica de um modo completamente enviesado. Confiou na tese liberal que sustenta que o desenvolvimento do comércio torna as nações pacíficas. Ora, esqueceu uma coisa central. Nem todas as potências, seja qual for a sua dimensão, se movem por dinheiro. Há outras motivações que conduzem as políticas externas das diversas comunidades. A afirmação do poder e a dominação do outro ou a expansão religiosa são exemplos que contrariam a visão dos países ocidentais.
Foi preciso a guerra chegar à porta da União Europeia para se perceber no logro em que se tinha caído. Uma coisa é um país, ou comunidade de países, ser pacífico, outra totalmente diferente é descurar a sua defesa perante possíveis ameaças externas, mesmo que invisíveis. Os países da União Europeia, desde o fim da segunda guerra mundial, têm sido, em geral, pacíficos. Também têm sido irresponsáveis, pois confundiram pacifismo com impotência. Veremos se os esforços que agora se prometem serão suficientes para no futuro dissuadir agressões militares.