sábado, 23 de fevereiro de 2019

A todo o vapor

As coisas que nos acontecem nas redes sociais. Há pouco choquei aqui mesmo (no facebook) com um antigo cartaz do MRPP. A Revolução deve avançar a todo o vapor, dizia numa mescla vibrante de amarelos e vermelhos e foices e martelos. E eu fiquei siderado pelo imperativo. Depois daquele momento de estupor que tamanha revelação produz, a razão, velha serpente nascida nos infernos, perguntou-me: avançar, mas avançar para onde? E eu perplexo respondi-lhe que deve avançar, porque uma revolução é uma coisa que avança, avança, avança, nem que seja para trás. O que importa é avançar, acrescentei. A rameira batida na borda das estradas, sorriu e voltou-se para mim: deve avançar seja lá para onde for, mas devagarinho. Devagarinho? Interroguei e acrescentei: devagarinho não, a todo o vapor. E ela, a messalina, para me atazanar, diz: mas onde vives tu, ó meu pobre idiota, se achas que mesmo nos anos 70 do século passado andar a vapor era símbolo de rapidez? Olha, diz-me ela, vai apanhar o TGV para Madrid ou um avião para Mérida. A todo o vapor.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Fim dos exames do 9.º ano


Depois de acabarem com os do 9.º ano - e já acabaram com os do 4.º e do 6.º - é só mais um passo e acabam com os do secundário. A seguir, julgo que os senhores reitores não se hão-de opor, acabam-se também os exames nas faculdades. Eu sei que isto é uma instância da falácia do declive escorregadio, mas a realidade está a tornar-se falaciosa. A esquerda continua empenhadíssima em ajudar as elites sociais a ocuparem os melhores lugares nas faculdades, mas penso que tanto zelo ideológico a impede de pensar nas consequências reais dos seus devaneios para os filhos dos seus eleitores. De conquista em conquista até à ignorância absoluta.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Uma ajuda a António Costa

Há quem ache (ver aqui) que é a preparação da segunda vinda de Passos Coelho. A mim parece-me um favor a António Costa. Em ano de eleições lançar o maior partido da oposição no combate interno é desperdiçar as energias necessárias para os confrontos essenciais. Os socialistas agradecem o eleitorado do centro - e tão precisados que estão para se livrarem da sua esquerda -, que desconfiará de um PSD em ebulição interna.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Inimigos

Há pequenos sintomas, a que não se dá atenção, mas que anunciam grandes catástrofes. Numa coexistência política civilizada, seria impensável governantes de um país pronunciarem-se sobre problemas que atingem outro. Isso, porém, acabou. Na verdade, a Itália actual e a França actual não são aliadas, são inimigas. Os políticos italianos estão a agir em conformidade.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Brasil

Aquilo que se está a passar no Brasil, com o novo governo Bolsonaro, é um acontecimento merecedor da maior atenção. Estamos a assistir a um ataque aos valores do Iluminismo, os quais pareciam estar completamente integrados nas nossas sociedades. O governo brasileiro, na prática, reinvindica os três pilares que as Luzes puseram em causa: a tradição, o preconceito e a autoridade. Pode parecer uma farsa anti-comunista. Na verdade, é uma tentativa de retorno ao Antigo Regime, um processo contra as Luzes e a razão.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O caso Miguel Macedo

Confesso que fico contente por Miguel Macedo ter sido absolvido (aqui). Não por ser da cor política dele, não sou, mas porque é uma boa notícia para a República. Não, nem todos políticos são corruptos. Aliás, acho mesmo que a maior parte não o é. Há, no entanto, uma coisa que, na minha ignorância dos caminhos da justiça, me faz impressão. Se qualquer acusação a um qualquer cidadão deve ser suficientemente sólida, a acusação a um governante deve-o também ser e, talvez, o deva ainda ser mais que noutros casos. Por muito que eu não concorde com as ideias de Miguel Macedo, reconhecia nele um bom ministro e tinha a impressão de estar perante uma pessoa séria. Serviu para quê a destruição de uma carreira política?

domingo, 2 de dezembro de 2018

Aproximação


A coisa já ultrapassou os Pirenéus e instalou-se na Andaluzia. O Vox (extrema-direita anti-catalã, anti-imigração e anti-feminista (sic), mas não anti-liberal a nível económico) obteve 11% dos votos e 12deputados. Mais dia menos dia, chega cá. Julgo que, em matéria de afirmação da extrema-direita, chegámos a uma situação irreversível. Os partidos tradicionais - mesmo que tivessem uma profunda conversão, o que não está no seu horizonte - são impotentes para evitar que esta nova direita ganhe um espaço significativo na Europa e também na Península Ibérica. Neste caso, o processo está a começar.