quarta-feira, 7 de agosto de 2024

A crise inglesa

Há um equívoco na leitura feita por muitos órgãos de informação sobre o problema dos desacatos provocados pela extrema-direita em Inglaterra. Sugerem que as mobilizações feitas se devem a uma notícia falsa propalada pelas redes sociais. Se assim fosse, o esclarecimento da verdade teria acabado de imediato com os desacatos. Ora, o que aconteceu, depois dos esclarecimentos prestados sobre a autoria do ataque, é que a desordem se intensificou. O triplo homicídio de crianças, uma delas portuguesa, foi a gota de água que as forças de extrema-direita inglesa estavam à espera. Se não fosse esse acontecimento seria outro qualquer. A expressiva votação no Reform UK, de Nigel Farage, 14% dos votos expressos, deveria ter alertado para o crescimento na população de sentimentos extremistas, os quais, mais tarde ou mais cedo, dariam cobertura a este tipo de desordem. É plausível que em Inglaterra esteja a crescer o racismo e a xenofobia e é esse crescimento que sustenta o comportamento da extrema-direita.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

O teatro orçamental

A pressão para o actual líder do PS, Pedro Nuno Santos, aprovar o próximo orçamento de Estado vem um pouco de todos os lados (aqui). Contudo, há que ler este drama sem qualquer ilusão. O orçamento de Estado de 2025 pouco conta para a trama teatral. O que está em jogo, da parte do governo, é conseguir uma janela de oportunidade para chegar a eleições em vantagem suficientemente clara que permita aspirar a uma maioria absoluta ou em conjunto com a IL. Ora, o comportamento dos socialistas é simétrico. Deixarão passar o orçamento se isso lhe convier. Se, por um acidente de percurso, tiverem eles a janela de oportunidade para almejar uma clara vitória eleitoral, não hesitarão em votar contra o orçamento. Este ficará nas mãos do Chega e das contas que este fizer ao seu futuro eleitoral. Todo o resto é encenação para fortalecer a posição de cada partido.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

A selecção dos refugiados

Cindy Ngamba, uma pugilista nascida nos Camarões, ganhou a primeira medalha olímpica para a sua selecção. Não a dos Camarões, mas a dos refugiados. Esta selecção olímpica representa a nação dos que perderam a nação. O facto de o Comité Olímpico Internacional ter aberto esta possibilidade mostra que o problema dos refugiados, daqueles que tiveram de fugir do seu país, é um problema que não pode ser varrido para debaixo do tapete. Não apenas devido aos regimes políticos que geram a massa dos refugiados, mas também aos problemas políticos que emergem nos países de acolhimento desses mesmo refugiados.

domingo, 4 de agosto de 2024

Uma pugilista, política e ciência

Um sinal claro de que a política, tal como ela foi entendida durante muitos anos, mudou é o debate em torno da pugilista argelina Imane Khelif. A dimensão política do caso não se refere tanto à posição da Argélia em defesa da sua atleta, mas ao debate nas redes sociais - a voz do povo - em torno da identidade efectiva de Imane Khelif. É um debate que divide conservadores e liberais, estando parte significativa dos primeiros, na verdade os mais ruidosos e empolgados, absolutamente certos de que a atleta é transgénero. Até ao momento não existe qualquer prova de que a atleta o seja, mas provas são coisas que pouco contam para quem tem certezas absolutas.

Plausivelmente, podemos pensar que a tipificação idealizada do masculino e do feminino seja isso mesmo, uma idealização. Talvez o masculino e o feminino façam parte da mesma linha, na qual se poderão encontrar diferentes modalidades de ser homem ou mulher, havendo homens mais próximos de serem mulheres e mulheres mais próximas de serem homens. Isto, porém, é um representação impressionista e a questão é, na verdade, de natureza científica. Que ela se tenha tornado uma questão política - e uma questão política de primeira grandeza no debate social - significa que o conhecimento nos traz problemas muito desagradáveis para as certezas que nos guiavam.

Desde o momento que o homem começou a desenvolver mecanismos de investigação científica fundados na observação da realidade, a visão que o homem comum tinha do cosmos, da natureza e de si mesmo tem sido mostrada como falsa. Enquanto a investigação tocou nas concepções do universo, na compreensão da natureza, o homem comum - aquele que, nos dias de hoje, nas redes sociais, sabe tudo - não se sentiu ameaçado. Quando, porém, o conhecimento começa a desencantar as representações míticas que se tem da natureza humana, esse homem comum sente-se em pânico e reage com violência, tanto verbal como física.

Desde o século XVII, embora aqui com alguns limites, a ciência tem vivido em relativa tranquilidade. Mesmo o facto de ter permitido produzir a bomba atómica não assustou o homem comum. Quando ela se centra na natureza humana, quando olha para ela como um qualquer outro objecto de investigação, esse homem comum reage e esta reacção ganha contornos políticos. Ao politizar-se aquilo que é da ordem do conhecimento, caminha-se para o momento em que a ciência, toda ela, pode ser posta em causa. O medo que o homem tem de descobrir qual a sua verdadeira natureza e a impossibilidade de suportar a sua realidade, ao transformar-se em programa político, pode trazer ao mundo um novo período de perseguição da ciência e do conhecimento.

sábado, 3 de agosto de 2024

Destruir a Constituição

A novela da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao caso das gémeas tratadas no Hospital de Santa Maria pouco tem que ver com o apuramento da verdade. Está em causa um ataque às instituições democráticas e, nos últimos desenvolvimentos, à Presidência da República. A tentativa de levar o Presidente da República a depor numa CPI seria uma espécie de golpe de estado constitucional. Ora, as forças que o pretendem fazer estão muito pouco interessadas na defesa da Constituição. Trabalham para a destruir.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

A sombra de Gouveia e Melo

Segundo uma sondagem da Intercampus para o Correio da Manhã (aqui) só Gouveia e Melo faria alguma sombra a uma eventual candidatura presidencial de António Guterres. Seria, na direita, o candidato melhor colocado. Como não é plausível que António Guterres se candidate, parece haver um largo horizonte para uma candidatura vitoriosa de Gouveia e Melo. Ora, se isso acontecer, estamos perante uma imagem sombria da nossa vida política. Por um lado, porque os militares, numa democracia saudável, devem permanecer afastados da política. Isto seria um retrocesso que nos levaria ao tempo das duas primeiras eleições presidenciais, pós 25 de Abril, nas quais eram militares as principais figuras na disputa pela presidência. Em segundo lugar, sublinharia, mais um vez, a dificuldade dos portugueses em aceitar uma visão civilista do poder político. Gouveia e Melo não deu qualquer prova de competência política - e não tinha que dar, pois não é político - e aquilo que o tornou uma personagem pública, organizar a distribuição das vacinas no tempo da pandemia, não nos diz nada sobre a sua competência política. Por fim, a sua candidatura seria um projecto político meramente pessoal, a que, eventualmente, os partidos políticos da direita se teriam de submeter. Ora, conhece-se muito pouco ou nada do pensamento político de Gouveia e Melo. O que poderá um homem de acção, como deve ser todo o militar, querer de um cargo político que tem poucos poderes que permitam agir?

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Médio Oriente e teologia política

O Médio Oriente está crucificado por duas posições maximalistas. O grande Israel e a Grande Palestina. Qualquer uma destas grandezas implica o desaparecimento da outra. Para piorar a situação, cada uma delas tem por detrás uma narrativa religiosa legitimadora. Não se trata de chegar a acordos razoáveis, mas de realizar uma visão absoluta de um destino, um destino traçado por Deus. 

Sempre que para assuntos humanos é invocado o nome de Deus pode-se esperar o pior, isto é, a entrega da situação ao diabo e a transformação da vida dos homens num inferno. Nada pior do que misturar teologia e política. Resta saber se, na verdade, é possível separá-las. Pelo menos, no Médio Oriente, onde o espírito que move as partes - mesmo parte substancial de Israel - é o da teocracia.