quinta-feira, 2 de julho de 2020

Esconder um problema

"Começa-se por classificar discurso, monitorizar discurso e acaba-se com Ministérios da Verdade." (ver aqui) Isto é um exemplo de uma falácia que se ensina a adolescentes nas escolas secundárias. Haverá quem encolha os ombros, haverá quem julgue que foi um infeliz erro de pensamento, mas que corrigido reporá a bondade da prosa da Iniciativa Liberal. Haverá outras formas de interpretar o uso da falácia. Uma delas, caída em desuso nos dias de hoje, a da escola da suspeita, perguntaria: o que está a ocultar aquela falácia? O que quer esconder a IL ao usá-la? Uma hipótese será o próprio problema. A forma como os promotores do ódio e da intolerância, aproveitando a liberdade de expressão e potenciados pelas redes sociais, estão a socavar as instituições democráticas. Esconde ainda outra coisa. A debilidade da sociedade civil - se não a complacência de parte dela - para lidar com a disseminação do discurso do ódio. A solução do governo é má? Possivelmente, mas aquilo que a IL propõe para lidar com a questão é nada ("Liberalismo é liberdade de expressão e responsabilidade individual."). Há um problema muito complicado que se liga à própria natureza da linguagem, à sua profunda ambiguidade e aos seus efeitos perlucotórios. Pode-se fomentar um clima de ódio e de absoluta intolerância sem que se usem expressões que sejam abertamente criminosas. A solução governamental desagrada-me, além de ser ingénua (será interessante ler os comentários ao post da IL), mas a diatribe da IL serve apenas para ocultar um problema muito complexo, cujas variáveis são a liberdade de expressão, a saúde das instituições democráticos, a possibilidade da tolerância, a realidade das redes sociais e a natureza complexa da linguagem.

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